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Publicado: Quinta-feira, 30 de abril de 2009

Profissão: Escravo

Sempre preocupada com as mazelas sociais do nosso Brasil, a Campanha da Fraternidade sempre coloca em pauta para todos os setores da sociedade algum problema de relevância. Diversos tipos de violência e injustiça são abordados em tais ocasiões, mas este ano ambas estão muito mais explícitas ao tratarmos da questão da segurança pública.
 
Hoje comemoramos o Dia do Trabalhador, ocasião que merece pausa nas atividades cotidianas e é marcada por feriado no calendário nacional. Nada mais justo que, no dia a ele dedicado, quem labuta possa ter um merecido descanso. Assim, tão justo quanto é expandir o assunto da violência também ao campo trabalhista, uma vez que nele também são cometidas injustiças.
 
Quando falamos sobre Justiça, Código Penal, problemas carcerários e relativos às forças policiais, raramente lembramos das ramificações que a violência pode ter. O trabalho escravo é uma dessas vertentes.
 
Em pleno século 21, na era da informática e da genética, milhares de pessoas ainda são submetidas ao regime escravo em nosso país. Estão esquecidas nos rincões brasileiros, em Estados do norte mas também no sertão mineiro. Sofrem nos canaviais paulistas e em território goiano. Não podemos esquecer, ainda, dos que passam por esse drama também em outros países.
 
O trabalho escravo é uma das piores formas de violência, pois tira do indivíduo seus direitos e o maior deles: a liberdade. Deixa-o alquebrado interiormente, retirando-lhe toda e qualquer dignidade. Acaba com sua saúde física e mental, submetido que é a maus tratos, à falta de alimentação e repouso adequado, além da humilhação de saber-se servil e desprovido de receber de forma justa os frutos por seu trabalho.
 
Como o assunto é tratado pela sociedade? Não é tratado. Infelizmente, apenas quando aparece no noticiário é que nos recordamos que isso existe. O governo federal tem sim secretarias, autarquias e departamentos com profissionais para cuidar desses casos. Mas como sempre, são poucas pessoas. Estão em número muito pequeno para cobrir o Brasil todo.
 
E a mídia? Parte dela prefere investir nas notícias mais sensacionalistas e que dão mais audiência. Fazem reportagens sobre trabalho escravo apenas quando um caso é descoberto por aí.
 
Aliás, quem se lembra que, há não muitos anos, descobriu-se que um conhecido deputado federal nordestino mantinha trabalhadores em regime escravo em uma de suas fazendas? A imprensa até que tentou fazer barulho, mas a defesa do nobre político alegou que o mesmo desconhecia as condições impostas aos trabalhadores, pois a fazenda estava sob a direção de alguns empregados.
 
“A paz é fruto da justiça”, nos recorda a CF 2009. Por outro lado, a violência é fruto da injustiça. E com um agravante: injustiça que gera mais violência e inicia um círculo vicioso. Sim, pois o trabalhador escravo libertado recebe por parte das autoridades uma indenização inicial, mais o dinheiro calculado pelo tempo em que trabalhou naquela condição. Depois disso, adeus. Então ele volta à dura realidade da busca de um emprego de carteira assinada, do sustento da família e de si mesmo.
 
Creio que desemprego e miséria não sejam desculpas para cair na marginalidade. Mas sei que a realidade é dura. Por desespero, muitas pessoas boas acabam cometendo crimes e violências por falta de raciocínio ou opção. Enfim, o problema é mesmo complexo e a grande pergunta é como impedir o início do ciclo de violências e injustiças.
 
Pensemos e rezemos, para agir. E que Deus conceda aos trabalhadores brasileiros a justiça que merecem como protagonistas da história do país, os verdadeiros construtores da nação da qual cada um de nós é peça fundamental.
 
Amém.
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Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é sacerdote católico apostólico romano e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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