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Publicado: Segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Profissão: bobô!

Jaqueline era uma executiva muito bem sucedida e bem remunerada, mas tinha um problema muito sério.

Separada do marido, com três filhos pequenos, tinha muita dificuldade para encontrar babá para os meninos, apesar do régio salário que pagava.

O bebê era muito manhoso e os maiorzinhos, traquinas.

Umas babás perdiam a paciência com eles e não ficavam no emprego. Outras ficavam, mas Jack acabava descobrindo que batiam nas crianças, negligenciavam com os cuidados, etc.
Era uma constante preocupação e um problema que se lhe afigurava sem solução.

Como já acontecera várias vezes a última babá se despedira há uma semana e ela já estava chegando às raias da loucura. Já pedira ajuda para a vizinha, a cunhada, a comadre...
Todo mundo já ajudara e se cansara e ela não sabia como ia continuar trabalhando se não encontrasse alguém, urgentemente.

E foi então que ele chegou à sua casa.

- Vim pelo anúncio do jornal. A senhora precisa de uma babá?

- Sim. É para sua irmã? Sua namorada?

- Não. É para mim mesmo.

- Você?! Quer um emprego de babá?

- Sim. O que há de estranho nisso? As mulheres invadiram o campo de trabalho dos homens. Acho que está na hora de nós revidarmos, invadindo o campo de trabalho delas, retrucou.

Jaqueline ficou intrigada. O rapaz falava bem, parecia ser culto... Seria uma brincadeira?

Ele, embora alegre, mostrava-se respeitoso. Não parecia estar debochando. E acabou contando a sua história.

Vinha de uma família muito pobre, estudara com muita dificuldade, mas conseguira formar-se: Psicólogo!

Só que perdera o emprego que tinha quando estudava e não conseguia encontrar trabalho.
Como sempre pensara em trabalhar com crianças e o salário era compensador, por que não aceitaria um emprego de babá?

- Mas, além de praticar seus conhecimentos de psicologia, vai ter que levá-los à escolinha e aos passeios, dar-lhes banho, preparar-lhes a comida, trocar as fraldas do bebê, dormir no quarto deles para atendê-los durante a noite...

E Jaqueline concluiu com uma ponta de ironia:
 - Será que está disposto para tudo isso?

- Claro que sim! Sei perfeitamente quais as obrigações de uma babá. Ajudei a cuidar de meus irmãos mais novos. Estou acostumado a trocar fraldas e preparar mamadeiras.
Jaqueline hesitou um pouco, mas acabou raciocinando:

Por que não? Já tivera tantas experiências negativas com moças muito bem recomendadas, por que não fazer essa inusitada experiência?

Um babá-macho e ainda por cima psicólogo! Chique, não?

Enquanto mostrava-lhe a cama que ocuparia no quarto das crianças e o armário que podia usar, ainda estava meio apreensiva:

- Será que não estou fazendo uma loucura?

Quando chegou a casa, ao fim do primeiro dia de trabalho dele, deu umas horas de folga ao rapaz, conforme fora combinado e aproveitou para especular as crianças:

- E então? Como foi o dia com a babá-homem?

Luizinho, o mais velho foi logo dizendo:
-Ele é um barato! Fez uma mágica da hora! E disse que se eu for muito bonzinho, um dia ele me ensina a fazer uma porção de mágicas.

Carlito, o do meio, disse:
- Ele me ensinou a desenhar um pato! Veja!

O pato do Carlito parecia qualquer coisa menos um pato, mas, tudo bem, o importante é que gostaram dele.
- E o Nenê? Chorou muito?

- Um pouco. Depois ele o levou para ver os passarinhos lá fora e ele acabou dormindo.

- Que bom que vocês gostaram da nova babá!

- Só que ele disse que não é babá, é Bobó.

- Pois seja! Bobó! Contanto que faça o que tem que ser feito!

O Bobó estava se dando muito bem com as crianças, fazendo o serviço direitinho, mas Jack não estava tranquila. Não podia acreditar que um rapaz como ele ficasse muito tempo fazendo o serviço de babá. De repente ele arranjava um emprego e era uma vez um Bobó!

Mas ele foi ficando. Fazia toda sua obrigação e ainda achava tempo para pequenas gentilezas, levar o carro ao mecânico, fazer compras, lidar no jardim. Estava sempre disponível para fazer pequenos concertos ou procurar alguém para fazer. Era ao mesmo tempo um serviçal, um companheiro e um amigo.

Enquanto as crianças estavam na escolinha ele experimentava receitas na cozinha. Sempre, à tarde, tinha uma novidade para o lanche, um bolo, um sanduíche diferente, uma sopa caprichada.

As crianças adoravam e a Jack, muitas vezes, saia do regime para experimentar, também. Mas, como não há bem que sempre dure, o que Jaqueline sempre temera, um dia, aconteceu.  O Bobô avisou que estava se despedindo.

O futuro sogro arranjara um emprego muito bom para ele. Naturalmente, não queria que a filha se casasse com um bobô.

- Que pena! Vamos sentir muito a sua falta! As crianças não vão se conformar!

- Dona Jaqueline, a senhora se esqueceu de que seu bebê já está com quinze anos? Ninguém aqui precisa mais de babá, muito menos de bobô!

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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