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Publicado: Segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Primeiro Amor

Na pequena cidade a chegada do circo foi uma festa.

Os moradores tinham poucas opções de lazer e os carros barulhentos transportando os artistas, o trailer, o caminhão, as jaulas com os animais, desfilando pelas ruas, foi muito divertido.

As crianças acompanharam o cortejo gritando e respondendo as brincadeiras do palhaço, no alto, vestido a caráter, com o alto falante na mão, ora mexendo com os pequenos, ora falando sério e anunciando os espetáculos.

Os adultos saíram às janelas e apreciaram a novidade, muitos invejando as crianças, com vontade de correr também atrás do circo.

As apresentações foram muito concorridas. Todo mundo ia ao circo. Ninguém queria perder uma só noitada.

Ficaram um longo tempo na cidade.

Os artistas fizeram amizades, as crianças freqüentaram a escola e os moços iam dançar no clube depois do espetáculo.

Os jovens da cidade encantaram-se com os do circo. Eram rapazes e moças viajados que conheciam muitos lugares e que faziam mais sucesso no meio da moçada que mesmo no trapézio ou na jaula do leão.

Estevão começou logo a namorar a Sabrina, uma linda contorcionista e sua irmã mais nova, Lucinda, conheceu no clube um atraente rapaz com quem dançou logo no primeiro dia.

- Você é do circo, não?

- Sim!

- Interessante eu não o vi trabalhar, até pensei que não fosse artista.

- Como não me viu? Tenho certeza que sim!

- Não! Sou boa fisionomista. Se o tivesse visto me lembraria. Você não tem trabalhado esses dias, não é?

O moço ria:

- Você não viu o palhaço Trelelé?

- Não me diga que é você.

- E por que não? Sou eu mesmo. Minha profissão é esta, mas meu nome é Silvar, você pode esquecer o Trelelé se isso a desagrada.

- Imagine! Eu adorei o palhaço, só me surpreendi por não ter percebido que era você. Eu sempre imaginei que os palhaços fossem todos velhos, nunca pensei que um rapaz pudesse ter essa profissão.

- Bem, para mim é apenas um trabalho, o meu trabalho.

- Em pouco tempo, Silvar e Lucinda estavam namorando, mas quando a Mãe soube repreendeu-a:

- Você não tem idade para namorar e mesmo que tivesse nunca permitiria que namorasse um palhaço.

- Mas, Mamãe, isso é preconceito! Ele é um artista.

- Eu a proíbo de encontrar-se com ele.

A mãe não aprovara também o namoro do Estevão, mas foi bem menos radical com ele.

- Não sei por que essa diferença. Por que o Estevão pode namorar a Sabrina e eu não posso namorar o Silvar? Ela também é artista de circo.

- Preferia que ele também não namorasse, mas, afinal, ele é mais velho e é homem. Não posso proibir.

Lucinda não entendeu o raciocínio da mãe e continuou o namoro.

Depois de mais algumas discussões a mãe acabou proibindo-a de ir ao circo, pois depois do espetáculo, ela o Silvar, o Estevão e a Sabrina iam namorar.

Estevão teve pena da irmã e tentou interceder por ela:

- Deixa ela, Mãe, eu tomo conta.

- Toma conta nada! Você não cuida nem de si mesmo!

Lucinda ficou muito triste. A noite chorava ouvindo a música do circo, a gritaria da criançada quando o palhaço aparecia, o aplauso para os números de malabarismo, e ficava só imaginando a maravilha que estava perdendo.

Mas não desistia do namoro e a mãe foi inflexível.

Sabrina começou a freqüentar a casa de Estevão.

A mãe que, a princípio, recebia-a a contragosto, acabou simpatizando com ela.

Sabrina era muito alegre e simpática, dessas pessoas de quem não há como não gostar.

Lucinda tinha um pouco de ciúme de ver a mãe preparando os quitutes preferidos da Sabrina e justificando-se:

- Coitada! Mora naquele trailer, não tem como fazer um bolo.

Mas Lucinda também gostava muito da Sabrina. Era ela que levava e trazia os recados e bilhetinhos do Silvar e marcava os encontros fortuitos na saída da escola ou na sala de espera do dentista.

Silvar falava e escrevia coisas bonitas que deixavam Lucinda encantada e ela estava cada vez mais apaixonada por ele.

Mas, chegou o dia do circo ir embora.

Saíram de madrugada e Lucinda, percebendo o movimento, saiu na sacada e ficou olhando lá embaixo o cortejo, agora silencioso.

Só Silmar, no alto do carro com o alto falante na mão despedia-se da cidade, agradecendo a todos que prestigiaram os espetáculos... a boa acolhida... aos que, de uma forma ou de outra, os ajudaram... essas coisas.

Por um momento Lucinda desejou que ele gritasse no alto falante alto e bom som para todo mundo ouvir que eles se amavam, mas ele não fez isso. Deu o seu recado e silenciou.

Lucinda não pode conter as lágrimas e então sentiu uma mão sobre seu ombro. Voltou-se e Estevão estava ali ao seu lado.

- Oh Estevão! Você deixou a Sabrina ir embora? Não pediu para ela ficar? Não pensou em
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Maith

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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