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Publicado: Segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Preconceito - parte II

- Boa tarde! Meu nome é Eugênio. Vim pelo anúncio.
 
Doutor Rossi era o único médico da cidade.
 
Estava ali há muito tempo. Conhecia todo mundo, tinha muitas amizades e cuidava da saúde da cidade toda.
 
Agora estava velho, cansado, rico, querendo aposentar-se, ir morar no campo, mas não tinha coragem de abandonar aqueles a quem devia todo o sucesso de sua carreira, que foram seus primeiros clientes e o brindaram com sua amizade e sua confiança.
Então, teve a idéia de convidar um médico recém formado para trabalhar uns tempos com ele e a quem ele iria passando seus pacientes até poder afastar-se e deixá-lo em seu lugar.
 
Agora estava meio desconcertado vendo o rapaz negro a sua frente.
Não que ele pessoalmente tivesse preconceitos. Fora abolicionista e agora trabalhava em prol da integração do negro na sociedade, mas será que as pessoas iam aceitá-lo?
 
Confiar nele?
 
Bem, até então, só tinha feito discursos, chegara a hora do testemunho.
Sorridente apertou a mão que Eugênio lhe estendia e dispôs-se a encetar a luta pela sua aceitação.
 
Os dois médicos logo tornaram-se muito amigos. Eles se completavam, a experiência do velho e o entusiasmo do jovem.
 
Eugênio estudava muito, estava sempre atualizado enquanto o outro mantinha-se nos moldes das décadas anteriores.
 
O Doutorzinho, como o chamavam, era dedicado e simpático e, pouco a pouco, todos foram acostumando com a sua cor e ninguém mais fazia objeções em ser examinado por ele.
 
Conquistou ainda muitas amizades entre as quais a família do Coronel Queiroz.
O Coronel e o Doutorzinho jogavam xadrez nas tardes de domingo e ele era freqüentemente convidado para sua casa, na fazenda.
 
E, foi nessas ocasiões que ele e Germínia, filha do Coronel começaram a trocar olhares significativos e tímidos sorrisos, o máximo que era permitido aos jovens de então.
Apaixonado por Germínia e certo de ser correspondido, Eugênio pediu-a em casamento ao pai.
 
O Coronel ficou surpreso com o pedido, sem saber o que dizer e acabou pedindo um tempo. Ele ia falar com a Germínia e se fosse do gosto dela, o aceitaria como genro.
Não disse nada à filha.
 
Quem tinha que resolver era ele, mas estava sem saber o que fazer.
 
Gostava muito do Eugênio e já estava meio preocupado com a Germínia que estava passando da idade de casar. Naquele tempo, aos trinta anos uma moça já era solteirona, mas por outro lado, casá-la com um negro, ia ser um escândalo. Que diriam os amigos? Os parentes?
 
Imaginava um bando de mulatinhos correndo pela casa, chamando-o de vovô e a idéia não lhe agradava nem um pouco.
 
Por outro lado o Eugênio era tão simpático, correto, íntegro, bem situado, doutor, por que, diabos, não era branco para tudo ser perfeito?
 
E os pensamentos iam e vinham na madrugada insone, sem saber como resolver isso sem ofender o Eugênio, pois gostava muito dele e não queria perder a sua amizade.
De repente teve uma idéia genial. Perfeita! Como não tinha pensado nisso antes?
 
 - Sinto muito, Eugênio! Por mim, faria muito gosto, mas a Germínia disse que não quer casar-se, mentiu, e eu não quero obrigá-la.
 
Eugênio ficou profundamente constrangido. Aqueles olhares, aqueles sorrisos! Como fora ingênuo! Como pode imaginar que ela aceitaria casar-se com ele, um negro?
Fora atrevido, deixara o amigo e a filha em situação embaraçosa e agora não sabia com que cara ia continuar encontrando-os.
 
Como pôde fazer uma coisa dessas?
 
O Coronel continuou:
 - Mas eu tenho uma proposta a lhe fazer.
 - Uma proposta?
 - Você quer casar-se com a Felícia?
 
Felícia era uma negrinha que fora criada pelos Queiroz desde que sua mãe, logo depois da abolição, sem conseguir trabalho. Com a filha pequena, deixou-a com eles para cuidarem até que pudesse vir buscá-la.
 
Nunca mais voltou e a menina foi criada com muito mimo, teve uma educação esmerada, era prendada e muito boazinha. Todos gostavam dela como se fosse da família.
 
O coronel a considerava como filha e preocupava-se com o seu futuro. Com quem a casaria? Dificilmente encontraria um negro a sua altura.
 
O Doutor Eugênio era perfeito para ela! Como não havia pensado nisso ainda?
 
Eugênio ficou mais desconcertado ainda. Estava mais ou menos preparado para uma recusa, mas não para uma proposta dessas.
 
Lembrou-se de um poema de Camões: Jacó serviu a Labão durante sete anos para casar-se com a Raquel, mas pai só lhe deu a Lia.
 
Será que a história estava se repetindo?
 - Isto é tão inesperado... preciso pensar... gaguejou.
 - Claro, pode pensar e qualquer que seja sua resposta quero que nossa amizade continue a mesma.
 
Como se isso fosse possível!
 
Eug&ec
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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