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Publicado: Segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Preconceito - parte I

Fábio, garoto mimado, filho único de pais abastados, pediu ao pai, de presente, um escravo para brincar com ele.
 
O pai tentou dissuadi-lo. Ofereceu um pônei ou um cachorro, mas ele argumentou que cavalos e cachorros não falam, não sabem rodar pião, nem jogar bola, nem pular corda.
 
Ele queria um menino para fazer-lhe companhia nas brincadeiras.
 
Era muito só. Morava distante da cidade e raramente o primo vinha passar uns dias na fazenda para brincar com ele. Um negrinho seria muito bom.
 
Comprar um escravo-menino era complicado e o pai foi enrolando o filho, prometendo que ia comprar, sim, e adiando a concretização.
 
Mas o Fábio não lhe dava sossego. Cada vez que chegava de uma de suas freqüentes viagens a negócios ele perguntava:
 - Trouxe o meu negrinho?
 
Até que um dia, sabendo que numa fazenda próxima uma escrava morrera deixando vários filhos, foi até lá e negociou um menino da idade do Fábio.
 
O Fábio ficou radiante! Eugênio e ele tornaram-se amigos inseparáveis.
 
O negrinho era muito bom. Apegou-se ao Fábio e satisfazia-lhe todos os caprichos.
 
O coronel ficou satisfeito com a aquisição. Dali a alguns anos teria um ótimo escravo adulto adquirido por preço baixo.
 
Naquele tempo as crianças aprendiam em casa as primeiras letras com professores particulares e, adolescentes, eram internados em colégios religiosos onde completavam a sua educação.
 
Fábio fez questão que Eugênio estudasse com ele e o menino revelou-se de uma inteligência notável.
 
O professor admirava-se de como podia um negro ser tão esperto, pois geralmente não era dada aos escravos a oportunidade de estudar nada e ninguém se importava com o seu QI. O que importava era sua resistência ao trabalho bruto.
 
Quando chegou a hora de Fábio ir para o internato, mais uma vez exigiu do pai que deixasse o Eugênio ir com ele.
 
Foi difícil encontrar um colégio que aceitasse o aluno negro. A situação era inusitada. Não havia nada a respeito no regulamento, mas os padres achavam que os outros alunos não iam gostar, muito menos os seus pais e o que menos eles queriam era perder o seu bom conceito.
 
Nessa época, começava o movimento abolicionista e qualquer atitude que demonstrasse simpatia pelos escravos era vista pelos senhores de escravos como uma adesão ao partido.
 
Não! Os padres não podiam correr esse risco.
 
Enquanto isso o Fábio teimava que só iria para o colégio se Eugênio também fosse.
 
Finalmente o Colégio São Carlos onde o diretor, Padre Alonso, era declarado abolicionista aceitou com muito boa vontade a inclusão do Eugênio, contrariando a opinião dos professores que eram contra, mas nada podiam fazer, pois ele era, além de diretor, o maior acionista da escola.
 
Eugênio e Fábio, mais uma vez, lado a lado começaram o curso que era uma preparação para quem quisesse entrar em uma Escola Superior, Direito, Medicina ou Engenharia.às quais poucos se interessavam, pois as fazendas de café davam muito mais dinheiro do que as profissões liberais.
 
Os colegas nunca aceitaram o Eugênio como um deles. Sempre o consideraram como um escravo, o escravo do Fábio, e achavam muito chique ter um escravo a sua disposição dentro do colégio.
 
À medida que Fábio foi se integrando aos colegas, fazendo amizades, porém, começou a sentir certa vergonha de seu relacionamento amigável com o negro e passou a tratá-lo com desdém, como um escravo que ele era.
 
Eugênio entristeceu-se, é claro, mas com a humildade que lhe era peculiar, entendeu e aceitou a mudança do Fábio.
 
Eugênio revelou-se um aluno brilhante. Estudava com gosto e era indiscutivelmente o melhor aluno da escola. Os colegas, sempre que podiam, pediam para ele fazer os seus trabalhos e ele os atendia com muito prazer, apesar de saber que aquilo não era correto.
 
E veio a abolição.
 
Houve uma reviravolta na sociedade e, como não podia deixar de ser os maiores prejudicados foram os próprios negros que, embora livres, tinham que se sujeitar a trabalhar por ínfimo salário e, quando velhos, doentes ou com muitos filhos não encontravam emprego e eram relegados à miséria.
 
Eugênio ficou apreensivo. Não era mais propriedade nem responsabilidade do Coronel. O Fábio não ligava mais para ele e, naturalmente, não iam mais pagar-lhe os estudos. Por que o fariam?
 
Mas o Padre Alonso interessou-se por ele e ofereceu-lhe uma colocação na secretaria do colégio onde ganharia um pequeno salário e poderia continuar seus estudos.
 
Terminados, estes, conseguiu ainda que o colégio lhe pagasse o curso de Medicina que ele queria fazer.
 
Com o brilhantismo de sempre, Eugênio tornou-se um doutor! Um médico! Talvez o primeiro médico negro no Brasil!
 
Mas, será que suas dificuldades estavam vencidas?
 
 
(Continua no próximo conto)
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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