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Publicado: Sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Por quê ser professor?

Há quanto tempo venho partilhando com leitores e leitoras os meus pensamentos? Faz já alguns anos, quando recém saía da adolescência. Fui amadurecendo na minha juventude e hoje o RG me afirma que sou considerado adulto. E ainda continuo dividindo com tantas pessoas as minhas angústias, dúvidas e conflitos. Também divido alegrias, esperanças e lições que vou aprendendo com a vida.

Quando escrevo esta coluna, não sei direito para quem é. São muitos leitores e leitoras no jornal e na internet. Sei de alguns que fazem a leitura dos meus artigos semanalmente. Mas acredito que há um grande número de pessoas com as quais nem tenho contato e que têm a paciência de verificar o que escrevo a cada semana.

Hoje divido mais um capítulo da minha vida: o dia em que resolvi atuar como professor.

Jornalista devidamente formado, com diploma e trabalho garantido, há cerca de dois anos resolvi voltar aos afazeres acadêmicos. Estudo nunca é demais. Decidi ingressar no curso de Letras com o objetivo de vir a ser um professor de Língua Portuguesa.

Seria o destino? Coincidência. Nas décadas de 40 e 50 do século passado, Itu contou com um Professor Salathiel, o Vaz de Toledo. Também era mestre em Língua Portuguesa e foi muito admirada pela sociedade ituana da época. Salathiel é também o nome do pai do saudoso Ednan Mariano da Costa, jornalista pioneiro que tantos anos dedicou ao jornal A Federação.

Meus motivos foram de ordem mais prática do que pelas coincidências. Como jornalista, a Língua Portuguesa já faz parte do meu cotidiano. Ler e escrever é o que mais faço na vida. Tantos anos escrevendo me possibilitaram aprender muitas coisas. Nada mais justo que eu queira partilhar com os outros o que me foi dado ao conhecimento.

Por quê ser professor? Por razões várias. Um pouco por gratidão: lembro com carinho de cada professor e professora que tive, desde o ensino básico até a faculdade. Considero de fundamental importância o papel que exerceram em minha vida as professoras e os professores que lecionaram durante minha passagem pelo ginasial, hoje chamado de Ensino Fundamental II, da 5ª série à 8ª série.

Foram os professores quem me guiaram para o bom caminho dos estudos e das notas altas. Ensinaram-me a pesquisar, a ter capricho nos trabalhos escolares, a perseverar na busca do conhecimento. Serei eternamente grato a todos, até o fim da minha vida. Assim, explica-se a razão pela qual eu gostaria de imitá-los.

Outra razão é o inconformismo com a atual situação do ensino em nosso país. Cerca de 20 anos atrás, ainda tínhamos escolas públicas de qualidade. Não é segredo para ninguém que hoje a situação é bem pior. Em escolas estaduais e municipais pelo Brasil afora, há falta de materiais e de professores. Sobre o salário dessa classe tão importante, nem farei comentários... Então, serei mais um engajado na revalorização da Educação no país.

Além dos problemas de ordem financeira-econômica (verba), o que incomoda realmente é a degradação moral verificada nas salas de aula, tanto de escolas públicas quanto das particulares. O professor complementava na escola uma educação que vinha de berço. Em casa, os pais confiavam nos mestres e eram seus aliados na educação da criançada. Os alunos respeitavam os professores como aos próprios pais, senão até mais do que eles.

Hoje há pais omissos na educação dos filhos, relegando aos professores as mais básicas noções de comportamento e cidadania. Na defesa de filhos mimados ou “incontroláveis” no lar, os pais passaram a se opor aos professores acusando-os de rigorismo exagerado. Os alunos se acham no direito de discutir, contrariar e até agredir os professores em alguns casos. O que fazer diante dessa inversão terrível de valores?

Tal situação é sinal dos tempos modernos. Em nome de uma psicologia permissiva, descarta-se a noção de autoridade e o respeito por ela. As crianças podem fazer o que quiserem, para não serem traumatizadas. E o que temos é uma sociedade à beira do caos, com crianças cada vez mais consumistas e jovens delinquentes de todas as classes sociais. Com certeza não serão modelos ideais de adultos, daqui alguns anos.

Inverter tal situação é o grande desafio e as dificuldades são imensas. Trata-se de um trabalho de formiga, com resultados de longo prazo. E tudo há de começar na sala de aula, com os professores cientes de seu papel na sociedade e na vida de cada aluno. Com dedicação, amor e respeito, devemos encontrar maneiras de reverter o que não está do jeito ideal. Fácil teorizar, complicado praticar. Mas sigamos em frente, com garra e esperança.

Amém.

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Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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