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Publicado: Segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Por Que Dilma Venceu Aécio?

Crédito: Internet Por Que Dilma Venceu Aécio?
Biquinho e muxoxo não adiantam: é preciso suar a camisa.

Concluída a disputa presidencial mais acirrada desde 1989 é hora de pensarmos no resultado e tratá-lo com uma postura madura, analisando-o friamente. Preconceitos e paixões atrapalham qualquer tentativa honesta de encarar qualquer aspecto da realidade humana.

A vitória de Dilma Rousseff nos coloca naquela velha questão do copo meio cheio ou meio vazio. Os brasileiros manifestaram sua vontade na base do voto e cada lado precisa respeitar a vontade do outro. Aécio Neves não perdeu por mero acaso. Foram apenas 4 milhões de votos a menos. Porém, quando se olha o mapa da apuração nos Estados, fica nítida a diferença.

O tucano foi mais votado em 12 Estados, mas em apenas 5 deles superou a adversária acima dos 60% de votos. Em todos os lugares em que Aécio foi votado, ele dividiu praticamente ao meio os seus votos com a petista. Além disso, conseguiu a façanha de perder no seu Estado de origem. Este último ponto foi algo arrasador.

A petista foi mais votada em 15 Estados e em 5 deles alcançou mais de 70% dos votos. E nos outros 11, dividiu-os ao meio com Aécio. Além disso, conseguiu a façanha de ser mais votada que o adversário em Minas Gerais (terra mais dele do que dela) e no Rio de Janeiro (que continua lindo). Resumindo: Dilma levou mais votos, mesmo nos Estados em que Aécio venceu. Eis aí a vantagem dos 4 milhões que a elegeram.

Confirmado o resultado das eleições, não adianta chorar e nem espernear. Causa-me espanto a ingenuidade do eleitorado brasileiro, até mesmo daqueles que se julgam mais "conscientes" que a massa da população. As eleições de 2014 ficaram marcadas por um clima de Fla-Flu injustificável, como se a democracia servisse para gerar divisões em vez de contribuir para a evolução do país.

Esta eleição provou que falar mal dos candidatos não adianta, assim como a militância eletrônica contra ou a favor deste ou daquele nas redes sociais. Alegar fraude e outras teorias da conspiração também revela uma falta de perspectiva gigantesca. Ainda precisamos aprender que, para uma eleição séria, bastam argumentos sólidos, propostas concretas e muita conscientização.

O pleito também mostrou uma derrota do "jornalismo denúncia". Claro que a Imprensa tem o dever de investigar e denunciar tudo o que for contra os interesses da nação. Mas jamais a Imprensa deve tomar para si o papel de influenciar diretamente na eleição, pois isso é desrespeitar o julgamento soberano de cada indivíduo e fugir à sua missão principal.

A presidente ("presidenta" não existe na Língua Portuguesa, nem por decreto) foi reeleita e 2018 está longe né? Agora estamos liberados para nos preocupar novamente com Big Brother, The Voice, futebol, carnaval e afins, certo? Nada mais errado. É preciso continuar insistindo nas reformas políticas e do sistema eleitoral. Ficar no pé dos políticos eleitos, cobrar-lhes trabalho como nunca antes e fazer valer os nossos direitos de cidadãos.

Discursos que levem a divisões e preconceitos são reações exageradas que surgem por causa da infantilidade geral das pessoas nesta nossa modernidade. Para que qualquer oposição vença uma eleição, é preciso muito mais trabalho do que blábláblá. Não se ganha um pleito em apenas dois meses. O trabalho deve ser sistemático e ininterrupto.

Não adianta colocar a culpa apenas em Minas Gerais e Rio de Janeiro, que foram o fiel da balança eleitoral. Senão, para ser coerente, metade do país não comerá pão de queijo até 2018. Uma tremenda bobagem. Também não resolve demonizar os que anularam o voto, votaram em branco ou sequer compareceram diante das urnas: a grande maioria de eleitores (80%) teve totais condições para definir a eleição para um lado ou para outro.

Não creio nas previsões catastróficas para o Brasil, feitas por alguns pessimistas. Quem se lembra dos tempos da ditadura, dos fiscais do Sarney, do Plano Cruzado e do Plano Verão, da hiper inflação e do overnight, sabe que já estivemos muito pior. Sinceramente, fico espantado e triste ao perceber como certas mentes se deixam levar pelo irracionalismo apenas para justificar opiniões nem sempre corretas.

O que boa parte dos brasileiros ainda precisa aprender é que no jogo da democracia as regras são definidas com muita antecedência e todos aceitam os termos da disputa. É preciso jogar com competência e não adianta chutar o tabuleiro para cima em caso de derrota. Também não vale levar a bola embora do campinho porque o adversário está ganhando de 4 a 0. Fazer biquinho com muxoxos não altera o resultado do jogo. Para os que desejam uma mudança no placar, o único caminho é suar mais a camisa, jogar conforme as regras e buscar uma virada.

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Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é sacerdote católico apostólico romano e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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