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Publicado: Segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Por esta ela não esperava

Eram recém casados, ainda em lua de mel quando receberam a visita do Chefe do marido.

Eles moravam em uma pitoresca cidadezinha turística e o “Homem” que morava na Capital quis conhecer suas belezas naturais.

Helio, o marido, jura que não convidou, mas deve ter oferecido vagamente a sua casa para quando ele viesse conhecer o vilarejo, achando que ele nunca viria.

Mas veio! Ele, a esposa e dois garotos.

Como não tinham quarto de hóspedes, deram o seu quarto para o casal e improvisaram camas para os meninos nos sofás da sala.

E o casalzinho não teve outra alternativa que não fosse se acomodar na edícula, num quartinho minúsculo destinado à empregada.

Todos os dias saíam para mostrar às visitas as belezas que estavam fartos de conhecer: o rio, a ponte, a cachoeira, a gruta, o escambal!

Célia não tinha a mínima afinidade com aquela mulher desconhecida, muito mais velha do que ela, com interesses e valores muito diferentes dos dela, mas tinha que acompanhá-la e tentar ser gentil; pois, além do mais, ela era a esposa do chefe do Helio.

Voltavam cansados das andanças, eles iam tomar o seu banho e descansar na rede, enquanto Célia preparava o jantar.

Naquela época não havia, pelo menos naquela cidade, nada de comida comprada pronta ou semi-pronta.

Tudo era feito na unha, literalmente.

O frango era morto em casa, depenado na água quente, estripado... .

O peixe chegava ainda quase vivo e ela tinha que escamá-lo, abrir...

Fingiu que não ouviu quando o garoto disse:

- To com fome!

Mas o marido ouviu e entreabrindo a porta da cozinha pediu naquela sua vózinha no. 2 a que ele usava quando sabia que ela estava furiosa:

- Querida! Arranje uns petiscos para a gente ir comendo enquanto esperamos o jantar.

Fechou logo a porta, talvez com medo que ela lhe atirasse uma panela na cara e só retornou minutos depois para pegar a bandeja com os queijinhos, salaminhos, etc.

À noite, depois que eles, enfim, resolviam ir dormir, os dois se enfiavam no muquifo para tentar descansar.

Ele estava irritado, não morria de amores pelo chefe. Aturar no horário do expediente já era demais, imagine só, dentro de sua casa, vinte e quatro horas por dia!

Estava em ponto de explodir e ao menor cutucão explodia mesmo, imaginem em cima de quem!

Ela também estava no seu limite de paciência e ao menor empurrão desandava em cima dele, é claro.

Mas como tudo tem fim, os hóspedes depois de vários dias resolveram despedir-se.

Ufa!

Mal viraram as costas Helio saiu para o trabalho, dizendo que não vinha almoçar, que seu serviço estava muito atrasado, pois o chefe estava de férias, mas ele não.

Furiosamente ela juntou toda roupa de cama usada, enfiou na máquina de lavar, arrastou o colchão para perto da janela para tomar sol, já pensando em arrumar a cama com todo capricho e preparar para os dois uma noite “daquelas”.

Depois começou uma faxina pra valer, pois com as visitas em casa não pudera arrumar nada direito.

Mas, quando estava no auge da limpeza, as cadeiras arriadas, o chão ensaboado, ouviu um barulhinho no portão e... ela não queria acreditar no que via!

Lá estavam seus hóspedes, com os filhos, as malas, mochilas, frasqueiras e bolsas.

- O carro quebrou logo na saída da cidade! Ainda bem que ainda estávamos perto e não foi difícil conseguir um reboque que nos trouxesse até aqui.

A madame sorriu:

- Vamos ficar mais uns dias.

Sorriso amarelo:

- Será um prazer!

Por essa Célia não esperava!

*****

O carro enorme, confortável, último ano, desliza rapidamente pela estrada.

Seus ocupantes conversam:

Ela: Até que enfim! Não aguentava mais comer frango e peixe!

Ele: Eu até que gostei, para variar... A menina cozinha bem! O frango à cabidela estava muito bom e o peixe recém tirado do rio tem um gosto especial!

Ela: Mas ela não sabe compor um cardápio. Fez batatas fritas todos os dias. Acho que engordei uns cinco quilos.


Ele: Pior que isso era aquele colchão deles! Deixou-me com dor nas costas!

Ela: - E as crianças então, dormindo naqueles sofás desconfortáveis!

Ele: Sabe que eu acho que para eles até é bom, conhecer um pouco da vida. Dar valor para sua casa, sua cama...

- Hiii! Estou sentindo um cheirinho de queimado.

- Pah!

O carro parou e não houve quem conseguisse fazer andar de novo.

Precisaram chamar um reboque e levá-lo para a oficina.

Ele e ela a uma voz:

- Por esta eu não esperava!

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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