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Publicado: Sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Política Brasileira: coisa de doido

Aproximando-se mais uma comemoração da Independência do Brasil, nada melhor do que dedicar o presente artigo às lembranças da Pátria. Se “recordar é viver”, conforme aquela conhecida sentença, recordar os fatos da história brasileira é viver a cidadania e assim praticar o espírito cívico que tanto falta nos dias de hoje.
 
Tenho idade suficiente para lembrar-me do presidente Figueiredo, o último dos generais. O coitado teve a árdua missão de efetivar a transição do regime ditatorial para a democracia, iniciada pelo presidente Geisel (deste último eu não tenho lembranças, por questões cronológicas).
 
Figueiredo era homem de quartel, mais afeiçoado a cavalos e ordens unidas do que aos bastidores da política. Cumpriu sua missão como bom soldado: com eficiência, mas sem prazer algum. Ao terminar o mandato, disse que seu maior desejo era que o povo se esquecesse dele. E o povo seguiu à risca: quem se lembra do Figueiredo?
 
Tenho idade suficiente para lembrar também da frustração que foi o movimento “Diretas Já”. Todo mundo querendo votar e a lei do voto direto barrada no Congresso Nacional. Mesmo assim, foi um marco histórico. Dirimiu todas as dúvidas de que o regime ditatorial não tinha mais como continuar existindo na política brasileira.
 
Então veio a eleição do Tancredo, da qual me lembro também. Aos meus olhos de criança daquela época, ele tinha jeito de velhinho camarada. Politicamente, era camarada até demais. Fez tantos acordos para ser eleito, que jamais conseguiria cumprir todas as suas combinações. Acabou falecendo dias antes de sua posse como presidente, gerando comoção nacional. Desde então, não posso mais ouvir Milton Nascimento cantando “Coração de Estudante”...
 
Tancredo deixou como herança o presidente Sarney, que durante toda a vida esteve na Arena, partido representante dos governos do regime militar. Percebendo o crepúsculo dos militares no poder, aderiu ao PDS assim que o partido foi criado. Sem prestígio junto ao presidente Figueiredo e contrário à eleição de Maluf (sim, ele mesmo!) na eleição indireta de 1984, o político maranhense caiu de paraquedas na Frente Liberal para eleger-se vice de Trancredo.
 
Tenho idade suficiente para lembrar do governo Sarney e suas crises: hiper-inflação, tabelamento de preço, Plano Cruzado e Plano Verão. Lembro dos “fiscais do Sarney” fazendo protesto nos supermercados. Lembro da Polícia Federal apreendendo gado nos pastos. Lembro dos supermercados com as prateleiras vazias. Lembro do racionamento de gás, carne e leite. Lembro de um tal Collor, junto com seu aliado Renan (sim, ele mesmo!), xingando o presidente Sarney de tudo quanto é nome e fazendo todas as críticas possíveis.
 
Tenho idade suficiente para recordar a eleição de Fernando Collor. Que emoção! Há vinte anos o povo reencontrava-se com a democracia! Em 1989 milhões foram às urnas exercer um direito suprimido desde 1961. O “caçador de marajás” recebeu mais votos que o “sapo barbudo”, apelido pejorativo ao Lula (sim, ele mesmo!) inspirado por preconceito da classe média e do empresariado.
 
Tenho idade suficiente para lembrar o quanto Lula xingou e criticou o presidente Collor, fazendo seu papel de político de oposição. Também me lembro de quantas vezes Sarney foi eleito senador, não pelo seu Estado do Maranhão, mas pelo Estado vizinho do Amapá... E também recordo que, já naquele tempo, o deputado Renan atuava com desenvoltura nos bastidores da política...
 
De lá para cá, muita coisa mudou. Ou nem tanto. Collor sofreu impeachment devido a escândalos de corrupção envolvendo seu nome. Lula foi eleito presidente e, mesmo com escândalos de corrupção envolvendo seu nome, mantém-se com altos índices de popularidade, agraciando os ricos com a taxa de juros e os pobres com o Bolsa-Família. Renan foi eleito presidente do Senado e renunciou devido a escândalos de corrupção envolvendo seu nome. Collor foi eleito senador por seu Estado de Alagoas e Sarney voltou a ocupar a presidência do Senado.
 
Hoje todos se apóiam uns aos outros. Lula, Sarney, Renan e Collor são todos amiguinhos, esquecendo os xingamentos e críticas do passado. Causa espanto os milagres propiciados pelo rodízio no poder!
 
É por isso que, quando me dizem para entrar na política concorrendo a algum cargo eletivo, tenho idade suficiente para dizer que prefiro entrar em um hospício. Porque a política brasileira é coisa de doidos, sendo que no manicômio ao menos os loucos tem a desculpa de não saberem direito o que estão fazendo...
 
Amém.

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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é sacerdote católico apostólico romano e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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