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Publicado: Segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Perdoar e recomeçar

Uma carta!
Há quanto tempo Heloísa não recebia uma carta!
 
 - Parece que as pessoas perderam o hábito de se corresponderem, pensa, virando o envelope distraidamente na mão.
 
E tem uma surpresa:
O remetente: Fausto Polinesi!
 
Todo o passado voltou-lhe a memória.
A velha história que, entre magoada e envergonhada, quisera esquecer empurrando para o mais profundo esconderijo de sua mente agora ressurgia viva e imperiosa, demonstrando que não podemos simplesmente passar uma borracha sobre nossos erros e seguir adiante sem sofrer-lhes as consequências.
 
Tudo acontecera a cerca de vinte anos antes.
Heloísa era uma garota muito bonita e muito alegre.
 
Luciana, sua mãe, viúva e pobre, lutava muito para dar a filha o máximo possível de bem estar e o seu sonho era vê-la bem casada.
 
Heloísa não pensava em casamento, gostava de sair com os amigos, ir a festinhas e namorar sem maiores compromissos.
 
E foi então que Fausto apareceu na sua vida.
Bem mais velho do que ela, ele era um rapaz muito culto, ganhava muito bem e era considerado um ótimo partido, disputadíssimo pelas moças casadoiras da cidade.
 
Fausto e Heloísa começaram a namorar.
Fausto cumulava-a de atenções, dava-lhe muitos presentes, levava-a a lugares caros que nenhuma de suas amigas freqüentava e logo começou a falar em casamento.
Luciana estava felicíssima. A filha ia casar-se com um dos melhores partidos da cidade!
Heloisa também se entusiasmou com os presentes, a bonita casa que montaram, a festa do casamento, a lua de mel no exterior.
 
Mas, tão logo a vida entrou na rotina começaram a aparecer as divergências.
Heloísa e Fausto eram muito diferentes. Não só a diferença de idade, mas principalmente de cultura, de gostos.
 
Fausto não gostava dos amigos de Heloísa e Heloísa não gostava dos do Fausto.
Fausto era autoritário. Não queria que Heloísa recebesse seus amigos barulhentos e, na opinião dele, sem educação.
 
Heloísa detestava os amigos de Fausto e negava-se a acompanhá-lo em visitas e reuniões sociais.
E os dois começaram a brigar. Fausto queria mandar e Heloísa não queria obedecer.
 
O nascimento da filha, que poderia ter sido uma motivação para que eles procurassem se entender melhor piorou ainda mais a situação.
 
Heloísa amava a filha, mas não tinha paciência com ela e Fausto a recriminava por isso.
E os dois passavam a maior parte do tempo zangados, sem falar um com o outro.
 
Heloísa começou a sair com os amigos. Fausto desconfiou que ela o estivesse traindo e a expulsou sumariamente de casa.
 
Algum tempo depois, saiu da cidade levando a filha e Heloísa nunca mais soube deles.
 
Começaram, então, os sofrimentos de Heloísa.
Sozinha, despreparada, tinha dificuldade para conseguir trabalho e sofria tendo de sujeitar-se a uma vida modesta, ela que se acostumara com o luxo que Fausto lhe proporcionara.
 
Mas, lutou bravamente e com o tempo conseguiu um bom emprego, uma casa confortável, uma vida digna.
 
Sentia, no entanto, muita saudade da filha e com o tempo uma nova imagem de Fausto começou a formar-se nas suas lembranças.
Lembrava dele, não mais como o tirano que queria subjugá-la, mas como o homem apaixonado que a cumulara de atenções.
 
Tarde demais compreendeu que o amava e que as diferenças deveriam ter sido trabalhadas, pois todos temos nossos defeitos e num casamento tanto quanto a paixão, é importante a compreensão, a tolerância.
 
Mas nada mais podia fazer. Não teve nenhuma notícia dele durante todo esse tempo. Só lhe restava tentar esquecer.
 
Agora, esta carta! Que será que o Fausto queria com ela?
 
 
Abriu com mãos trêmulas e leu as breves linhas onde ele pedia para encontrar-se com ela para legalizarem sua situação. O divórcio acabara de ser aprovado no Brasil e ele queria divorciar-se dela.
 
Marcaram um encontro num restaurante. Jantariam juntos e conversariam.
 
Heloísa aguardou o encontro com muita ansiedade..
 - Será que o Fausto está querendo se casar com outra e por isso quer o divórcio?
Envergonhou-se ao admitir que estivesse com ciúmes.
Estava claro que ele devia ter arranjado outra. A troco de que ia ser fiel a ela depois de tudo?
 
E pela enésima vez censurou-se:
- Sou uma idiota!
 
Sentada à frente dele Heloísa esforçava-se para esconder a emoção.
Ele estava tal e qual ela o guardara em sua lembrança. O mesmo charme, a mesma gentileza, a mesma segurança. Parecia que o tempo não havia passado para ele
 
Ela tinha a consciência de estar muito mudada. Seu riso não era mais o mesmo e seus olhos pareciam guardar todas as mazelas dos últimos anos.
Parecia mais velha do que ele. Pelo menos, estava sentindo-se assim.
 
Começaram a conversar.
Quanta coisa para contar!
 
Fausto falou muito da Cristina, a filha, sua maior preocupação.
Contou que teve muita dificuldade para criá-la sozinho.
Seus familiares tentaram ajudar, mas Cristina foi uma criança difícil e ninguém tinha paciência com ela.
 
Colocou-a então em um colégio interno que ela detestou, ficou revoltadíssima e nunca o perdoou por tê-la obrigado a ficar lá...

Assim que completou a maioridade foi para o exterior e não voltou mais. Atualmente encontrava-se em New York e muito pouco se comunicava com o pai.
 
As horas passaram sem que eles percebessem.
Só quando o garçom veio perguntar se queriam mais alguma coisa, se deram conta de que já era muito tarde, o salão esvaziara-se e o garçom esperava impaciente que eles saíssem.
 
- Vamos embora antes que ele nos enxote a vassouradas!
 
- Mas, você não queria falar sobre o divórcio?
 
Ele ri:
 - Queria, mas não deu tempo.
 
Heloísa faz a pergunta que a estava engasgando desde que recebera a carta:
 
- Você vai casar-se? É por isso que quer o divórcio?
 
- Não! Eu quero acertar o que lhe devo. Nós casamos com comunhão de bens. Você tem direito a uma parte de meu patrimônio e a uma pensão alimentícia. Já devia ter acertado isso há muito tempo, mas demorei muito para aceitar a situação, botar a cabeça no lugar.
 
Heloisa sentiu-se corar lembrando as coisas horríveis que ele lhe dissera quando a expulsara de casa.
 
Balbuciou:
- Que é isso! Eu não tenho direito a nada!
 
- Amanhã falaremos sobre isso. Agora é melhor irmos embora.
 
No dia seguinte encontraram-se novam

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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