Colunistas

Publicado: Sábado, 13 de maio de 2017

Pegando carona - Parte 1

Pegando carona - Parte 1

 Ano passado decidi, junto com um amigo, passar por uma experiência que nos fizesse sentir mais vivos. Dada a minha vontade crescente de repetir isso numa proporção maior, vou deixar a seguir o meu relato da experiência e em breve o relato do meu amigo. 

"Não esperava que fosse tão rápido que eu fosse cair na estrada. Certo, foi uma curta viagem, com um roteiro até que definido, mas mesmo assim, essa foi a parte mais importante: ir.

O ser humano tem muito medo de ir, tem muito medo de arriscar. O risco é que dá gosto à vida e simbolizando a viagem, temos a frase: “Pedra que não rola cria limo”.

Bom, a motivação da viagem foi o autor desta célebre frase, Teco Martins. Eu muito ligado e atento ao cenário musical independente, vi que ele se apresentaria na Ponte Torta em Jundiaí, cidade que morei durante 10 anos aproximadamente. Eu iria, como sempre vou em apresentações na região, pegar os respectivos ônibus e voltar pra minha casa. Antes. Decidi convidar um amigo para a viagem que me fez a proposta: “Vamos, mas de carona”. Como ser humano sempre enjaulado, achei que ele tinha essa carona em mãos. Perguntei com quem e recebi a resposta de que iríamos de dedo na estrada mesmo. Não hesitei em aceitar.

Meu desejo de sair, conhecer, sentir, viver é enorme há anos e essa era uma oportunidade que seria um erro não aceitar.

Enfim, a viagem começou em Itu. Nós, uma plaquinha, uma mochila, a estrada bem próxima a cidade inclusive e a desconfiança de passar horas na estrada sem um sinal. O primeiro contato foi um senhor que passou por nós e nos deu a dica de nos aproximarmos mais (mais ainda!) da cidade, pois naquele ponto geraria uma desconfiança dos motoristas. Foi importante não seguir essa dica, pois mais que sejamos gratos a atitude do senhor.

Bem, continuamos no mesmo ponto com a placa levantada, com gestos e rostos amigáveis (rostos esses banhados pelo forte sol do meio-dia). Em determinado momento, um gesto diferente do Cassiel, quase de desespero e uma olhada minha pra trás. Não sou bom em reconhecer modelos de carros, mas mais tarde descrevendo para os amigos que nos recepcionaram em Jundiaí, acredito que era uma Hilux. Sim, pegamos carona com um empresário de nome Luiz, dono de uma caminhonete cabine dupla. Um senhor muito cordial, de fala boa, bem vestido e, certamente de bom coração. Seu carro estava repleto de materiais que seriam doados a vítimas de um acidente climático na cidade de Jarinu.

Entramos desacreditados no carro, como que um sonho. Não ficamos nem 30 minutos na estrada para conseguir esta primeira carona.

Senhor Luiz conversou demais conosco durante o trajeto, nos explicou que tem uma fazenda com algumas vacas na região e aos finais de semana procura cuidar de seus animais. Comentou que o gesto do Cassiel pareceu sincero e decidiu parar. Cassiel conversou muito com ele sobre o momento político do país, ao que descobrimos que ele é um direitista declarado. Falou sobre a marginalização das pessoas, sobre a favelização, sobre ter passado as mesmas dificuldades destas pessoas e tê-las superado e achar que estas pessoas podem da mesma maneira. Segundo ele, na época em que morou na favela “Via-se mais estrelas do que cobertores”.

Sim, são pensamentos de pessoas que eu procuro não me relacionar. Mas, esse senhor tinha mais bondade no coração do que pessoas que me relaciono com pensamentos iguais. Que usam do seu pensamento “defensor social” para se promover. Ele foi respeitoso a todo momento com todos os pensamentos. Ele apoiou nossa causa e atitude e isso foi louvável.

Esse senhor, não precisava demonstrar humildade a dois jovens na estrada. Ele não provou nada para ninguém com a atitude de parar o carro e nos dar carona. Então, é isso: acima de todos os rótulos, esse senhor tinha bondade. Essa é a essência.

Ele nos deixou no Maxi Shopping e a partir daí eu sabia nos guiar. Andamos bastante até o centro de Jundiaí, para ir à Ponte. Nessa parte do passeio percebemos o quanto as pessoas são mecânicas. Perguntamos para as pessoas como se chegava na Ponte a partir do centro e todas falaram “Xiii é longe daqui”. Acredito que andamos 15 minutos para chegar até lá e aí que a gente percebe o que andar 15 minutos é muito pras pessoas. A gente vê que se não é o lar são os carros que prendem as pessoas, isso é estranho demais.

Chegamos ao nosso destino e esperamos lá alguns minutos onde encontrei minha amiga Talita, pela primeira vez pessoalmente.

Esperamos até o Teco chegar para apresentar-se.

E a apresentação foi algo mágico. Os discursos dele nos faziam pensar exatamente no nosso propósito. Lembro de alguns fragmentos em que ele dizia que o ser humano nasce como um pássaro, cheio de asas, mas sempre tem alguém que se acha no direito de os prender por acha-los bonitos ou por eles cantarem bem. Isso tocou.

A última canção foi ainda mais tocante. Em “Respeito é a Lei”, primeiramente, ele pediu que todos ficassem mais próximos dele (muito próximos). Depois pediu que confiássemos nele e que abríssemos nosso coração. Fiz o que ele pediu. Então, ele pediu que procurássemos as mãos de quem estava ao nosso lado e déssemos nossas mãos a essas pessoas. Pediu então que focássemos nossos objetivos e colocássemos todas as energias, todo o amor que concentramos naquele momento nesses objetivos. Nesse momento não consegui conter as lágrimas. Chorei pela energia que havia ali concentrada, chorei por ter o mesmo objetivo que a pessoa que estava ao meu lado e que me motivou a fazer essa viagem, chorei para tirar o peso de não fazer nada que eu goste cotidianamente e por pensar que se eu quiser é só fazer. Enfim, chorei.

Ao término do show esperamos um amigo meu de longa data chamado Felipe, que nos levou para casa dele, onde mora com outro amigo nosso do Ensino médio, e nos gerou momentos bem legais também. Muita conversa, muito álcool, muita música e algumas risadas nesses momentos na casa dele. Foi bem legal rever estes amigos, não os via há 5 anos.

Após os exageros, dormimos e às 11h30 do dia seguinte começamos a aventura de volta pra Itu. Primeiro pegamos dois ônibus urbanos até chegarmos à Rodovia Dom Gabriel, onde levantamos a placa e começamos os gestos. Demoramos em um ponto e fomos andando. Em um momento, porém, que viramos as costas para andar um pouco mais uma Kombi encostou.

Senhor Giovane parou pra gente e disse que iria até Cabreúva, um pouco antes do pedágio. Aceitamos, óbvio e entramos na Kombi. Como sentei na parte de trás e pelo veículo ser um pouco barulhento não consegui ouvir muito da conversa com ele. Mas, pelo que perguntei ao Cassiel, conseguimos reparar no contraste entre a primeira carona e essa. O Senhor Giovane era pastor evangélico. Disse que se fossemos duas mulheres não pararia, afinal, imagine se alguém da igreja o vê. Disse que os espelhos dos filhos são apenas os pais, então este deveria ser bom. Comentou que em sua Terra, Alagoas, era cachaceiro e depois que se mudou para cá tornou-se pastor.

Nos deixou onde combinado e andamos um pouco até depois do pedágio. Essa foi a hora mais tensa de conseguir carona ou pelo menos pareceu. Recebemos alguns olhares desconfiados, alguns sorrisos, alguns sinais de deboche (que nos fizeram rir), algumas buzinadas, etc. Um senhorzinho passou e Cassiel comentou: “olha esse aí fumando um pigas, gente boa, podia parar”. Demoramos pra perceber que ele havia parado, ele teve até que buzinar, haha.

Por coincidência este senhorzinho chamava-se Luiz também. Estava indo exatamente pra Itu, para visitar a filha que mora aqui. Comentou que é difícil dar carona pois já foi assaltado duas vezes. Ele parecia muito desconfiado, apesar de parecer um senhor muito bom. Era bem humilde, não enxergava com a mesma grandeza que nós aquele momento. Quando o Cassiel entrou no carro e ia colocando o cinto ele: “Precisava por cinto não, que isso”.

Foi nos contando que conhecia as serras ao redor.

É válido dizer que nós também estávamos com certa desconfiança deste senhor (a hora que ele parou pra urinar foi levemente tensa) mas ele não era um abusador, serial killer, etc.

Deste senhor acho que foi o mais difícil de conversar e tirar coisas. De qualquer maneira, ele nos deixou na rodoviária de Itu e pareceu grato aos nosso votos de que essa atitude que ele tomou de bondade voltasse pra ele. E assim terminou nossa aventura.

Acredito que conseguimos muito bem extrair o que gostaríamos dessa aventura. Derrubamos todos os rótulos pra ver o principal que um ser humano deve ter: bondade. Não deveria ser tão incomum assim ajudar alguém, isso não deveria gerar olhares estranhos das pessoas, ajudar um próximo e fazer essa troca acontecer. Quando emanamos coisas boas de nós mesmos, é certeza que as receberemos de volta.

Além disso, o mundo é enorme. Nossa viagem foi de 52km pra ir e 52km pra voltar e pareceu que ficamos uma semana fora de casa, como o Cassiel disse. Imagine este esquema numa proporção maior? É preciso de muito pouco pra ser feliz, na verdade, precisamos do básico. O pão de forma seco que comemos no meio da estrada estava tão gostoso quando a pizza que comemos na noite anterior, porque aquele era o momento, aquela era a vida e tínhamos tudo o que precisávamos ali.

E eu posso escrever páginas e páginas sobre a gratidão a estes momentos e não conseguiria descrever a intensidade de ver que o mundo é enorme e as pessoas são boas, só precisam mesmo de um empurrãozinho, uma oportunidade de dar uma carona às vezes."

Comentários

Deixa eu pensar

Marcelo Sandy

Marcelo Sandy

Marcelo Sandy é um jovem ituano, palmeirense, aspirante a cronista. Escreve textos reflexivos que levam os leitores a pensar sobre diversos temas. Seu foco principal são as crises existenciais do ser humano.

Arquivo