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Publicado: Segunda-feira, 15 de agosto de 2005

Pé no breque

Nunca visitei a Bahia. Não sei se é verdade, mas já me contaram que lá existe a prática da “cesta” depois do almoço. Tudo pára, inclusive o comércio, para uma relaxada por volta do meio-dia até as 14 horas. Medida saudável essa, levando-se em conta a personalidade dos baianos, alérgicos a estresse por natureza.
Meu ritmo é dos paulistas. Como 99% deles eu sei o que é ter rotina estressante, o que é ter a sensação de que o mundo está girando rápido demais e de que as 24 horas do dia são pouco para realizar tudo o que queremos. No trabalho, na hora de ir ao banco, prezo a velocidade. O primeiro mandamento do paulista é não perder tempo, de jeito nenhum.
Uma marca característica da pressa de São Paulo é ver os transeuntes da Avenida Paulista. Numa primeira olhada não sabemos se estão correndo devagar ou se estão andando rapidamente. De lá para cá, de cá para lá, são milhares de paulistanos transitando a pé e em marcha acelerada.
A fim de combater o estresse que o esforço mental de minha profissão exige, passei a praticar exercícios físicos regularmente, por orientação médica. Foi o melhor conselho que um médico já me deu até hoje. A prática de esportes, além de manter o físico em dia, colabora para manter uma vida saudável em todos os aspectos.
Pois foi em um, dos tantos exercícios feitos semanalmente, que machuquei o pé esquerdo. Nada grave, apenas um mau jeito. Nada que uma pomadinha não resolvesse. Porém, enquanto a pomadinha não acabasse com a dorzinha chata, não poderia andar no ritmo costumeiro.
Fui obrigado a colocar o pé no breque. Reduzir a marcha e andar vagarosamente, passo a passo. A princípio foi um pé-sadelo, com o perdão do trocadilho. Nada pior do que desejar andar rápido e não se sentir capaz. Um esforço a mais e as pontadas aparecem, obrigando-nos novamente ao passa vagaroso.
Depois de uns dias em marcha lenta, acostumei. Andar devagar passou a ser algo diferente da rotina. Uma oportunidade de observar melhor as coisas ao meu redor. Uma chance de saborear cada passo do pé esquerdo e do pé direito.
Feliz e acostumado com meu novo ritmo, caminhava pelo centro de Itu. Um vendedor de qualquer coisa notou minha presença e quis interromper minha caminhada. Ao me ver andando tão lentamente, com certeza imaginou: “Esse é um desocupado. Está andando tão devagar que não deve ter o que fazer”.
O coitado se enganou. Apesar de lento, estava com a cabeça a mil por hora, pensando em assuntos de trabalho e me dirigindo para ele. O vendedor esperou que eu me aproximasse e perguntou: “Olá, o senhor tem um minutinho?”. Como não estava interessado em comprar nada, fosse o que fosse, respeitosamente respondi: “Não, obrigado”. Realmente eu não tinha um minutinho, porque todos os meus minutinhos estavam sendo empregados na minha calma e lenta caminhada.
Meu pé esquerdo já está melhorando. Poderei voltar aos exercícios regulares. Também vou conseguir andar no meu ritmo natural de paulista estressado. E de quebra vou ajudar os vendedores de qualquer coisa a perceberem, de longe, que não tenho nenhum minutinho, através das minhas rápidas e largas passadas.Talvez eu sinta saudade de andar vagarosamente, de curtir cada passo. Nessas horas ficarei com inveja da tranqüilidade dos mineiros e dos baianos. Mas pode ser que eu machuque o pé outra vez, quem sabe? Tomara então que pelo menos seja o direito. Só pra variar. O ideal mesmo é andar conforme seu próprio ritmo, na velocidade que a vida o levar, com a pressa que seus pés permitirem.

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Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é sacerdote católico apostólico romano e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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