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Publicado: Sábado, 28 de novembro de 2009

Passar a vida em vão

“Quem já passou por esta vida e não viveu / Pode ser mais, mas sabe menos do que eu / Porque a vida só se dá pra quem se deu / Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu, ai / Quem nunca curtiu uma paixão / Nunca vai ter nada, não”

O Ser Supremo criou a vida no Universo com qual finalidade? Para ser vivida, oras! Não desejo incorporar à afirmação qualquer aspecto de leviandade. Mas que a vida deve ser vivida, isso sim. Dentro dos limites da ética, da moral, da caridade, da fraternidade, por exemplo.

Viver deveria ser a ocupação maior de todos os seres humanos. Infelizmente, com o advento da Era Moderna, parece que alguns se esqueceram disso. Passam seus dias atrás apenas de negócios, nervosos em reuniões, discutindo uns com os outros.

Ficam sem tempo para a família, para as amizades, para os relacionamentos pessoais com figuras queridas em maior ou menor intensidade. Passam pela vida sem amar, sem rir, sem chorar, sem se emocionar.

Quem não viver esta vida apaixonadamente, dia após dia, não terá uma segunda chance. No momento em que tiver de abandonar o plano terreno, não terá nada para levar consigo. Bens materiais e títulos sociais permanecem do lado de cá. Para a eternidade levamos apenas o amor que cultivamos, as amizades que fizemos, o bem que praticamos e os sorrisos que demos.

“Não há mal pior do que a descrença / Mesmo o amor que não compensa / É melhor que a solidão / 

Os que passam por esta vida tentando ser corretos e ajudar os semelhantes, nem sempre são compreendidos. Na verdade, creio que seja algo inerente aos atos caritativos: sempre há alguém para semear o joio em meio ao trigo. Gente que não faz o bem e não deseja que ninguém o faça.

Ao encarar tal fato, muitos passam a desacreditar do ser humano. Desenvolvem uma visão pessimista sobre a humanidade e o mundo em geral, tornando-se amargas e fechadas por dentro. Isolam-se. Passam a não contar com a solidariedade de mais ninguém. Mergulham numa solidão triste.

Trilhar os caminhos da bondade sempre compensa, nem que seja uma caminhada solitária. Porque por trás dos gestos de bondade, o saldo final é sempre o amor que trazemos dentro de nós mesmos. E tal amor nunca fica sem recompensa quando partilhado.

“Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair / Pra que somar se a gente pode dividir / Eu francamente já não quero nem saber / De quem não vai porque tem medo de sofrer / Ai de quem não rasga o coração / Esse não vai ter perdão”

Na sociedade consumista e capitalista, o mantra repetido é o verbo “acumular”. Homens e mulheres querem somas e mais somas em seu saldo bancário. No fim, não levaram sequer uma moeda para o além-túmulo. 

Esquecem de dividir o fruto do sucesso que lhes foi permitido por Deus, com aqueles menos favorecidos pela vida. Lembra-me a triste história daquele homem que morreu sem nunca ter abraçado os filhos, porque passou a vida carregando seus sacos de dinheiro.

Muitos não abrem mão de seus bens, com medo de partilhar em excesso e acabar também em estado de necessidade. Não sabem que a maior necessidade do ser humano é amar e ser amado, de diversas formas.

Os que se deixam escravizar pelo medo de amar e ser feliz, não terão perdão para si mesmos quando perceberem, tarde demais, que seu tempo passou em vão. Desejarão voltar no tempo para rasgar o coração e abri-lo, fazendo entrar e sair dele os sentimentos, único e eterno tesouro que carregaremos para sempre conosco.

Amém.

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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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