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Publicado: Segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Para Cecília

Alberto e Cecília estavam viajando em lua de mel quando ao passarem por uma cidade turística souberam que um pianista muito famoso ia fazer uma apresentação.

Cecília era fascinada por recitais de piano, Alberto, nem tanto, mas o que eles não fazem para agradar naqueles primeiros fascinantes dias!

Quando o cantor-pianista anunciou a primeira música “Para Cecília” Alberto falou ao ouvido da esposa:

▬ Olha lá a sua musica!

▬ Até ai, nada de mais, há tantas Cecília, nem mesmo quando ele disse que fez essa música para uma grande amiga Cecília se tocou.

Aos primeiros acordes porem, as lembranças vieram aos borbotões e ela não pode deixar de emocionar-se.

▬ Você está chorando, meu amor!

▬ A música é tão linda! Estou emocionada.

▬ Ele riu, deu-lhe um beijo rápido e acomodou-se para cochilar.

O artista cantava, acompanhando-se ao piano uma linda canção onde falava do passado com muita ternura.

Alberto não era muito fluente no inglês e nem estava a fim de esforçar-se para entender o que o cara dizia, limitou-se a recostar e já estava até cochilando.

Cenas do passado vieram à mente de Cecília.

Perdera os pais com cinco anos de idade e fora criada em um colégio de madres.

Teve uma educação ortodoxa e quando aos dezoito anos foi aos EEUU fazer um intercambio cultural teve dificuldade de administrar a sua relativa liberdade. O comportamento de suas colegas a escandalizava e ela nunca sabia o que devia e o que não devia fazer.

Todos os colegas em pouco tempo arranjaram seu par e, nas horas vagas se divertiam em passeios e festinhas. Só ela não arranjou ninguém. Nem ela nem o Michael, seu colega de classe.

O Michael era muito bonito, gentil, simpático, mas, Cecília não entendia porque os colegas o viam com uma ponta de ironia. Era um artista, cantava, tocava, compunha e fazia tudo isso com maestria.

Cecília apaixonada que era pela música o admirava e em pouco tempo os dois tornaram-se grandes amigos.

Era tudo que Cecília queria, um amigo com quem pudesse conversar, uma companhia para passeios sem qualquer envolvimento amoroso.

Namoro para ela só com vistas ao casamento. Dentro de um ano ela retornaria ao Brasil e não queria envolvimento com um gringo, por mais simpático que ele fosse.

Até que um dia ele perguntou a ela:

▬ Você não tem namorado?

▬ Não, e você tem namorada?

Ele ficou meio constrangido e disse:

▬ Pensei que você soubesse que eu sou gay.

Cecilia ficou muito desconcertada. Ele percebeu e disse que gostava muito dela e podiam ser grandes amigos, independente de sua condição. Só que nunca poderiam ser namorados.

Continuaram a encontrar-se. Cecília sentia-se bem ao seu lado e fingia ignorar a chacota dos colegas.

Quando se despediu dele para voltar ao Brasil ele presenteou-a com uma partitura da música que disse haver composto para ela.

Era uma linda melodia que ela executou inúmeras vezes ao piano, sempre com uma ponta de saudade daquele ano que fora tão especial na sua vida.

Lembrava do Michael com um carinho enorme. Seria tão bom se fosse diferente... mas não era... Não esperava tornar a vê-lo e era melhor assim, pois ele nunca poderia ser para ela algo mais do que um amigo, apenas um amigo.

Depois conheceu Alberto, apaixonaram-se, casaram, ela nunca mais pensou no outro.

Ha anos não tocava sua música e agora ouvindo-a com uma letra que falava de um amor platônico, mas muito forte, real e inesquecível, todo o passado reviveu em suas lembranças.

Como pode não reconhecê-lo? Ele mudara muito, apresentava-se com seu nome artístico e a última coisa que ela esperava era encontrá-lo ali.

Ela amava Alberto. Ele era o homem de sua vida. Não tinha a menor duvida quanto a isso, mas Michael ocupava um lugar muito especial em seu coração.

Sentiu um desejo muito grande de aproximar-se dele, conversar, saber como ele estava, o que estava fazendo e como chegara ao sucesso, afinal era muito pouco provável que tivesse outra oportunidade de falar com ele.

Será que Alberto ia entender? Com certeza, não.

Já fizera muito de acompanhá-la àquele concerto maçante para ele. Que iria pensar se ela contasse toda a história e quisesse ir bater papo com o pianista?

Essa, nem na lua de mel!

Aos últimos acordes, quando as luzes se acenderam, todos se levantaram, ela também se levantou, Alberto esfregou os olhos e perguntou:

▬ E então? Valeu a pena?

▬ Oh se valeu!

Alberto nunca ficou sabendo quanto!

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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