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Publicado: Segunda-feira, 13 de junho de 2016

Os Participantes e Os Trabalhos do Vaticano I

Crédito: Internet Os Participantes e Os Trabalhos do Vaticano I
Vista antiga da Praça de São Pedro, no Vaticano.

Ao todo cerca de mil bispos foram convocados para formar a assembléia conciliar, dos quais 750 participaram efetivamente. Era uma Igreja, de certa forma, diferente na composição de suas lideranças, mais européia, e isso acarretava um clima de divisão. No Vaticano I todo o planeta estava representado, pois 30% dos padres conciliares vinham de fora da Europa. Entretanto, apesar de atuarem longe do Velho Mundo, todos eram europeus de nascimento ou de formação.

O caso da Itália e sua super-representação deixa isso bem evidente: 35% dos convocados eram italianos. Estes ocuparam 65% dos cargos consultivos, todos os secretariados e presidências das cinco comissões de trabalho. Uma das exceções foi o Monsenhor J. Fessler (1813-1872), austríaco nomeado secretário do Concílio.

Para auxiliar nos trabalhos formaram-se seis comissões compostas por especialistas: a Comissão Teológica (para questões importantes quanto à Doutrina, tomou por base o estudo pormenorizado do Sílabo); a Comissão para Disciplina Eclesiástica (para questões relativas à vida do clero e a pastoral); a Comissão dos Regulares (para tratar de diversos problemas das ordens e congregações religiosas); a Comissão para as Missões e Igrejas Orientais (que discutiu a aplicabilidade das normas tridentinas às Igrejas orientais); a Comissão Político-Eclesiástica (que abordou temas bastante amplos sobre as relações entre Igreja e Estado); e a Comissão dos Ritos (que, como o nome indica, visava estudos sobre a maneira de celebrar liturgicamente os mistérios da fé católica). Cada uma das comissões contava ainda com o auxílio de notários, pesquisadores, intérpretes e taquígrafos.

Como se pode notar, os trabalhos foram bem intensos. Porém isso não significou muito em termos de aproveitamento. O trabalho dessas comissões levou à preparação de cerca de cinqüenta esquemas, dos quais seis foram discutidos e apenas dois promulgados (Dei Filius e Pastor aeternus). Foi aprovado, mas não promulgado, um Catecismo único para toda a Igreja.

Em 10 de dezembro o projeto de constituição dogmática De doctrina catholica foi distribuído e mal acolhido pelos padres conciliares, recebendo críticas severas na discussão pública de 28 de dezembro. Em 4 de janeiro de 1870, chegou-se à conclusão de que uma reformulação era mais que necessária.

Enquanto aguardavam tal providência, os participantes dedicaram-se ao estudo de temas variados: os deveres dos bispos; a questão da residência episcopal; as visitas pastorais; a vacância da sé; a vida clerical; o catecismo; queixas sobre uma série de questões canônicas desordenadas e surreais; etc.

Questões menores misturavam-se a temas importantes sobre a estrutura da Igreja, as funções específicas da Cúria Romana, do Papa e dos bispos. Estes últimos preocuparam-se em debater ainda não apenas os seus deveres, mas também seus direitos no exercício do episcopado.

Em 21 de janeiro foi apresentado o projeto da constituição dogmática De Ecclesia Christi. Seus primeiros dez capítulos expunham a natureza da Igreja enquanto corpo místico e sociedade visível, com seu governo independente das sociedades civis, suas propriedades, imutabilidade e infalibilidade. Uma organização hierárquica, governada pelo Papa, cuja primazia foi longamente desenvolvida no capítulo XI e cuja soberania é afirmada no capítulo XII.

As relações entre a Igreja e a sociedade civil foram tratados nos três últimos capítulos, nos quais os padres conciliares estudam a questão da salvação fora da Igreja e tomam precauções para que a eclesiologia não seja reduzida à questão do Papa. Após as primeiras discussões, como é normal no processo de produção de um documento conciliar, o texto foi encaminhado para nova redação. Esse novo texto, porém, acabou não sendo distribuído para novos debates.

Já de início o Vaticano I mostrava-se complicado na prática e a insatisfação dos participantes ficou bastante evidente porque as regras vieram de cima para baixo. Questionou-se o método dos trabalhos, os infindáveis discursos, sucessivos e sem nexo entre entre si, além da horrível acústica da sala escolhida para as assembléias. O anúncio do Concílio, recebido inicialmente com certa simpatia, causou em muitos ambientes, com o passar do tempo, certa inquietação e uma crescente agitação. As controvérsias entre os católicos liberais e os intransigentes retornavam agora com novo vigor.

As queixas foram tamanhas que, em 22 de fevereiro, as sessões foram suspensas para que a sala do Concílio fosse reorganizada. O regulamento acerca dos discursos também foi modificado, objetivando acelerar os debates. Uma nova regra dizia que um debate poderia ser encerrado caso dez participantes solicitassem sua interrupção. A idéia foi rejeitada. Também não foi aceita a regra de que uma constituição pudesse ser aprovada por maioria simples. Outros estudos prosseguiram: em 9 de maio foi distribuída a constituição De Romano Pontifice e os padres realizaram mais um exame do decreto sobre o catecismo.

(Continua)

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Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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