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Publicado: Segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Os dois mundos de Cecília

Desde quando Cecília podia lembrar-se, recebia a visita de sua Madrinha duas vezes ao ano. No seu aniversário e no domingo anterior ao Natal.

No Sítio Santo Antônio onde morava, a sua visita era recebida com muita alegria. A Mãe esmerava-se em preparar o que de melhor podia na sua condição de sitiante pobre para oferecer à Comadre rica e muito querida. Cecília arrumava a casa e vestia seu melhor vestido para esperá-la.

As crianças ouviam sermão antecipado por travessuras que pudessem fazer:
- Não desarrumem a casa... Não se sujem... Cumprimentem... Agradeçam os presentes.

A Madrinha chegava sempre bem cedinho, carregada de presentes para todos. Cortes de tecido para a Comadre confeccionar roupa para a família toda, guloseimas para as crianças e um presente muito especial para a Cecília.

Agradava muito as crianças, mas tinha um xodó muito especial com a afilhada. Dizia que ela estava cada vez mais bonita, elogiava tudo que ela lhe mostrava, os cadernos da escola, os trabalhinhos de bordado e crochê. Almoçava com os compadres e não economizava elogios para o leite puro, as frutas e legumes fresquinhos, o frango caipira, o leitão pururuca... Era muito agradável e todos gostavam muito dela.

Quando Cecília terminou o curso primário na escolinha da vila próxima, a Madrinha convidou-a para ir morar com ela na cidade. Ela podia estudar no melhor colégio e futuramente ser uma professora como ela sempre dizia que queria ser. Cecília ficou radiante. Sentiu-se uma verdadeira Cinderela indo morar na casa da Madrinha, que ela imaginava que fosse mais ou menos como um castelo e onde ela seria servida por muitos empregados, tudo muito chique como ela via nos livros de histórias que a Madrinha lhe dava.
Ia estudar numa boa escola, ter colegas ricas e um dia arranjar um namorado que seria muito importante. Um príncipe? Acho que não tem príncipes por lá, mas pelo menos um doutor de família muito rica.

E a imaginação corria solta!

Os pais ficaram indecisos. Já sentiam a falta da filha mais velha que ia conhecer uma vida diferente e podia até afastar-se deles para sempre, mas não podiam negar-lhe uma oportunidade dessas de melhorar de vida. Se ficasse no sitio o que a esperava? Uma vida pobre e sacrificada! E ficou decidido. A Madrinha viria buscá-la assim que começasse o ano letivo.

A mãe arrumou a sua roupa o melhor que pode. Fez algumas peças novas, consertou as mais velhas, lavou e passou tudo com o maior capricho. Enquanto isso Cecília embalava-se no seu sonho que ia tornar-se realidade. Morar na cidade, estudar numa escola grande e um dia ser uma professora.

No dia aprazado a Madrinha veio buscá-la e foi com uma alegria imensa que Cecília sentou-se ao seu lado no carro e as duas empreenderam junta a viagem longa e cansativa, que para Cecília era super emocionante. O começo da maravilhosa aventura que seria a sua vida dali por diante. Mas, nem tudo foi como Cecília esperava.

A Madrinha não morava em um castelo nem mesmo em uma mansão, mas num apartamentozinho funcional. Foi logo dizendo a Cecília que, como não tinha empregada, ela teria algumas obrigações, arrumar seu quarto, cuidar de sua roupa, lavar a louça...

Cecília ficou decepcionada. Onde a vida de princesa? A criadagem? A Madrinha estava tratando-a como uma empregada! Ela estava acostumada a trabalhar. Sempre ajudara a mãe nos trabalhos domésticos e já trabalhara até na roça, mas a mãe era condescendente e não ligava muito se as camas estavam desarrumadas e as roupas mal passadas. A Madrinha era exigente e chamava sua atenção se o serviço não estivesse perfeito. É para o seu bem, dizia, um dia você vai se casar e sua sogra não pode dizer que você é uma moça sem préstimo. Mas tinha coisas boas também.

Havia um quarto só para ela com a cama coberta com uma bonita colcha colorida, armário espaçoso para suas roupas e uma mesinha com cadeira para ela estudar confortavelmente. Da janela ela podia ver toda a cidade, até ao longe, a perder de vista e, à noite, iluminada, parecia-lhe um nunca acabar de estrelas, uma festa de luzes e ela pensava: Parece que estou no Céu!

Foi ao Colégio com a Madrinha para fazer a matrícula e depois comprar o uniforme e o material. Encantou-se com a Escola muito grande e bonita. Lembrou-se de como era difícil para seus pais comprarem o material escolar. Sempre faltava alguma coisa porque nunca tinham dinheiro suficiente para comprar tudo. A Madrinha comprou tudo o que foi pedido e ainda quis passar pelo shopping para comprar um vestido para Cecília usar no domingo. Era a primeira vez que ela usava um vestido comprado na loja. Toda sua roupa era feita pela mãe. Achou o máximo ficar no provador experimentando um e outro, escolhendo, ouvindo a opinião da Madrinha.

Na escola também a esperavam muitas dificuldades. Apesar de usar o mesmo uniforme ela era muito diferente das colegas, meninas de classe média alta que frequentavam festinhas, falavam de músicas e artistas que Cecília não conhecia. Ficou isolada, pouco falavam com ela e quando o faziam não escondiam certo pouco caso pelo seu jeitinho acanhado e seu sotaque sertanejo.

As primeiras notas foram péssimas e a Madrinha ficou muito zangada.
 - Você precisa estudar mais! Deste jeito não vai ser uma professora, nunca.

Cecília começou a chorar:
- Mas eu não entendo o que os professores falam. Quando pergunto alguma coisa os colegas riem. Eu acho que sou muito burra!

A Madrinha contemporizou:
- Não! Você é muito inteligente! Acontece que a escola onde fez o primário era muito ruim, por isso está mais atrasada do que os seus colegas. Eu vou arranjar uma professora particular para ajudar, mas você vai ter que estudar muito.

Cecília começou a estudar o dia todo. De manhã ia a Escola, à tarde estudava com a professora e à noite ainda revisava as lições. Mas isto não a aborrecia. Pelo contrário, gostava de estudar e se interessava por tudo o que aprendia.

A Madrinha achava até que ela estava exagerando e à noitinha a chamava:
- Venha ver um pouco de televisão. Precisa descansar um pouco.

E assim ela foi conhecendo os artistas, as músicas, as novelas, assistindo os noticiários e sabendo o que se passava pelo mundo do qual o Sitio Santo Antônio parecia nem fazer parte. Rapidamente, recuperou o tempo perdido e no fim do ano já estava entre os primeiros alunos da classe, perfeitamente adaptada à disciplina escolar. O relacionamento com os colegas também melhorou. Agora disputavam sua parceria nos trabalhos em conjunto, fez algumas amizades, começou a receber convites para passeios e ter uma vida normal para a sua idade.

A convivência com a Madrinha, no começo foi difícil. Cecília, que até então só a via nos dias de visita, sempre gentil, imaginava-a uma criatura meio angelical, perfeita, e surpreendeu-se ao ver que ela era uma pessoa normal, com qualidades e def

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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