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Publicado: Segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Os aniversários do Guilherme

Albertina colou cuidadosamente a foto na última página do álbum.

Ficou um longo tempo contemplando seu filho Guilherme no dia de seu décimo oitavo aniversário.

Estava rebelde, não queria deixar-se fotografar para a mãe colocar no álbum que começara no dia que ele nasceu e no qual fazia questão de colocar mais uma foto a cada aniversário.

— Que coisa mais cafona!

— Mas eu gosto de ver como você vai ficando a cada ano que passa.

— Pois me veja a vivo e a cores, não precisa de fotos. Fez uma careta para a mãe que bateu a foto.

Albertina, como já fizera tantas vezes começou a folhear o álbum.

Na primeira página um bebe recém-nascido com os olhos fechado, o rostinho enrugado, carinha de choro, o mais lindo bebê do mundo, o seu bebê.

Na página seguinte ele já estava de pé, exibindo a proeza de dar os primeiros passos no dia de seu primeiro aniversário.

Dois anos, três, quatro, com cinco anos tirou a foto com o uniforme da Escolinha, pois já então ele era um estudante de mochila, e tudo.

Até os dez anos ele curtiu muito as festas de aniversário, a reunião das crianças, os presentes, o bolo com as velinhas e a foto para o álbum da Mamãe.

Seus dez anos foram comemorados em Disneyland. Foi emocionante para ele desde os preparativos, o comentário com os amigos, a viagem, os dias de festa e depois ainda o relatório sem fim do passeio, dezenas de fotos e uma, a melhor de todas, colocada no álbum.

Depois disso, passou a detestar as festas de aniversário o que não impedia de gostar de ganhar os presentes e comer o bolo.

No fundo o que ele queria era contrariar a mãe, rebeldia de adolescente, mas Albertina, por bem ou por mal, conseguiu tirar todas as fotos do filhote com suas pernas compridas e jeitão desajeitado de menino que está se preparando para ser homem.

Aos dezesseis anos arranjou sua primeira namorada e foi abraçado a ela, todo sorridente que ele saiu na foto. Afinal a primeira namorada é um marco na vida da gente e vale ser imortalizada em uma foto comemorativa.

Com dezessete ele foi comemorar com os amigos e voltou tarde para casa. A mãe o esperava com o bolo, o presente e a bronca:

— Onde se viu ficar na rua até essa hora? Você ainda é menor de idade, e, a contragosto, ele submeteu-se a mais um clique.

E por fim aquela foto dele junto ao carro, presente do pai no dia de seus dezoito anos. Estava feliz como nunca. Tirara sua carta de motorista e recebera o aval para andar por ai no seu próprio carro para inveja dos menos afortunados.

 A careta para a mãe ficou imortalizada na ultima pagina do álbum.

Como não sabemos nada do destino, da felicidade ou desventura, do bem ou do mal, do tempo de viver e da hora de morrer!

Alguns dias depois um acidente pôs fim à história do Guilherme e Albertina agora colocava a última foto em seu álbum.

Passou tristemente a mão pelo rosto maroto, os cabelos revoltos, todo o corpo robusto. Como ele era lindo!

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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