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Publicado: Segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Onde está a felicidade?

Marília e Odila, gêmeas idênticas, eram tão parecidas que até os mais íntimos, às vezes, confundiam-se.

Até certa idade, a mãe vestia as duas sempre iguais, mesmo porque elas se recusavam a usar qualquer coisa diferente da outra, roupa, calçado, enfeites, brinquedos, tudo tinha que ser absolutamente idênticos. 

Adolescentes, porém, começaram a querer ter, cada qual a sua individualidade e a incomodar-se com o fato de serem frequentemente confundidas.

Fizeram cortes diferentes no cabelo e mudaram a cor dos mesmos.

Isto foi o bastante para que já não se parecessem tanto uma com a outra, mas ainda assim, de vez em quando havia confusão como no dia em que um namorado da Marília chegou a casa delas e quando viu a Odila exclamou:
- Marilia! Você pintou os cabelos!

Marília e Odila foram sempre muito unidas. Fizeram o mesmo curso superior e namoraram dois colegas de turma que eram muito amigos.

Os quatros estavam sempre juntos. Nem para namorar as duas se separavam! 

Mas, pouco antes da formatura, Odila brigou com o Alexandre, seu namorado, e terminaram o namoro.

Odila ficou muito triste, ainda mais quando, Marília e Marcelo resolveram casar-se logo depois da formatura. 

Os pais delas não ficaram muito satisfeitos. O Marcelo era um ótimo rapaz, mas muito pobre. Os pais achavam que eles deviam esperar ao menos até conseguirem uma boa colocação.

Mas, como sempre acontece, eles não aceitaram os conselhos. Estavam apaixonados e tudo que queriam era começar sua vida profissional juntos, batalhando lado a lado desde os primeiros passos. 

Odila quase morreu de inveja da irmã e tudo que queria, então, era arranjar um noivo depressinha, depressinha, e casar-se também.

Com o Alexandre não tinha volta. Ele já estava até namorando outra menina.
E então ela começou a namorar o Leonardo.

Leonardo era um viúvo ainda bem jovem, fazendeiro, muito rico.

Ele povoava os sonhos de muitas solteironas, viúvas e divorciadas, mas, apaixonou-se pela Odila e depois de um breve namoro pediu-a em casamento.

Os pais dela mal podiam acreditar em tanta sorte.

Um homem rico daqueles! A filha ia ter uma vida de rainha!

Odila estava muito feliz. Marília casara-se e ela se casaria também. 

Quem não ficou muito contente foi a Marília, pois, não pode deixar de fazer comparações, desde o valor do anel de noivado até a grande festa que Leonardo fez questão de oferecer.

Seu casamento tinha sido muito simples. As alianças, compradas a prestações, eles ainda estavam pagando.

Ofereceram, depois da cerimônia religiosa, um modesto coquetel para os amigos mais íntimos, no próprio salão de festas da igreja e foram passar só uma semana em uma casa de praia emprestada por um amigo. 

Agora a irmã estava se casando com grande pompa, recepção no clube mais chique da cidade e lua de mel num cruzeiro.

Não queria admitir, mas estava com inveja, sim!

Odila, depois do casamento, foi morar na fazenda de Leonardo, numa grande casa, ricamente mobiliada, com várias empregadas.

Uma vida de rainha, mesmo, como havia prognosticado a mãe.

As irmãs visitavam-se com frequência.

Marília extasiava-se com a beleza da fazenda, o conforto da casa, a fartura e, sobretudo o sossego da irmã, assistindo televisão a tarde toda, numa vagabundagem de dar inveja. 

Mas Odila, por sua vez invejava a irmã, tão dinâmica, trabalhando fora, estudando para concursos, compartilhando com o marido experiências diversas. Os dois sempre tinham tanto o que contar um para o outro!

Comparava com a sua vida, sempre igual naquela casa vazia, o marido o dia todo fora, cuidando dos afazeres da fazenda e quando ela sugeria que ele trabalhasse menos, que deixasse o serviço para os empregados ele retrucava:
- Não é possível. Se eu largar o leme o barco afunda.

E lá ficava ele agarrado ao seu “leme”, cuidando do seu “barco” onde não havia lugar para ela. 

No primeiro ano de casada, Odila teve o primeiro filho. Leonardo ficou eufórico! Queria muito ter filhos e a sua primeira esposa fora estéril. Estava cada vez mais apaixonado pela Odila e cumulava-a de presentes e de agrados.

Marília também queria muito um bebê, mas não era possível, com a vida corrida que levava e o dinheiro sempre escasso. Se ela engravidasse seria uma tragédia. Teve que se conformar com o papel de madrinha do sobrinho e, mais uma vez, engolir a diferença de sorte entre ela e a Odila.

No segundo ano, Odila teve outro bebê e no ano seguinte, mais um.

Leonardo queria uma grande família. Não concordava com nenhum método contraceptivo por princípio e, principalmente, por curtir muito a criançada.

Odila começou a ficar cansada, desanimada e, cada vez mais, invejava a irmã que não tinha problemas com crianças, continuava elegante e bonita enquanto ela sentia-se gorda, velha e feia.

Marília contou a Odila que ela e o Marcelo compraram uma barraca para comemorarem o seu quinto aniversário de casamento num camping e que fora muito divertido. 

Odila comentou:
- Você é que é feliz! Está sempre fazendo coisas emocionantes.

- Imagine! Você dizendo uma coisa dessas! Olha a festa que vocês deram no seu aniversário de casamento! Eu vi o tamanho do brilhante que ele deu para você!

- Mas você está sempre passeando e eu nunca saio daqui.

- Não reclame! Vocês têm até avião e nós só agora conseguimos comprar um carrinho usado e ainda vamos suar para pagar as prestações.

- Você pode fazer a viagem que quiser sem pensar no custo!

- De que jeito? Desde que me casei ou estou grávida ou estou amamentando! (O quarto filho já estava a caminho)

- Quem me dera poder ter os filhos lindos que você tem! Você é muito mais feliz do que eu.

- Que nada! Você é que é feliz!

Afinal, onde será que está essa tal felicidade?

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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