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Publicado: Sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Ódio dos Infernos

Recentemente me engajei num diálogo com um sujeito muito religioso. Meu interlocutor, uma pessoa um tanto tímida e reservada, escutava muito pacientemente enquanto eu, mais desinibido, dissertava animado sobre algum assunto qualquer. Conforme o fazia, no entanto, deixava exposto o lado mais obscuro e sombrio da minha alma (como pecador convicto que eu sou), o que de certo modo deixava o diálogo ligeiramente desconfortável pro meu amigo.

Dado momento, falava eu sobre alguma coisa que ia de encontro aos dogmas religiosos do sujeito (homossexualidade, ateísmo, promiscuidade, etc.), quando fui subitamente interrompido por uma declaração inusitada:

"Veja bem, todas essas pessoas que você tá falando vão ser julgadas por isso. Quando morrer, todos terão que prestar as contas sobre essas coisas e, com certeza, irão queimar no inferno."

Tão logo ele terminou de falar, percebi o grau de crueldade nessa declaração. Uma crueldade quase doentia, disfarçada de uma frase de cunho religioso que, aparentemente, deveria demonstrar que meu amigo tinha fé cega. Ou ainda, convencer os demais ouvintes a se tornarem "pessoas melhores", "converter-se" e "serem salvos (por Jesus)".

Naquele momento, me dei conta que o religioso em questão em nenhum momento pensou que o pecador podia se arrepender das práticas consideradas pecaminosas e, afinal, ser salvo. Na real, ele nem considerou essa hipótese. O comentário dele era recheado de ódio, e talvez ele nem tenha se dado conta de que, bem no seu íntimo, no também sombrio lado escuro da sua alma, ele TORCIA MUITO pela punição eterna do pecador.

Isso me fez lembrar de uma outra prática que grande parte de nós executamos todos os dias: "tem mais é que matar esse bandido." "Tem mais é que linchar esse vagabundo."

E eu notei que tanto eu, como "fascista neo-liberal" que sou, assim como esse meu amigo ultra-religioso, temos o desejo reprimido de punir e maltratar quem nós consideramos maus. Ambos queremos dormir tranquilos a noite, não buscando tornar o mundo um lugar melhor pra todos viverem, mas sim, procurando meios de castigar aqueles que não seguem nosso próprio código de conduta moral.

A medida que esse pensamento foi me dominando, eu lembrei de uma cena que todos vocês devem se recordar muito bem e que trazia um ensinamento muito profundo. Na época, talvez, a gente nem tenha se dado conta disso. Transcrevo:

"[...] o Padre me disse que eu devia rezar, pra tudo ficar direito."
"Mas isso não funcionou, porque não encontraram o ladrão!"
"Mas eu não rezei pra encontrar o ladrão."
"Não?"
"Não. Eu rezei pra que o ladrão se arrependa e se tornasse bonzinho."

Vocês se lembram/sabem da onde é?

Nós disseminamos muito o ódio entre nós mesmos. Reféns que somos do sentimento de vingança, acreditamos demasiadamente no poder da punição severa. Ter a certeza que cedo ou tarde nossos desafetos serão julgados e condenados exemplarmente nos conforta e nos dá uma sensação de paz, tranquilidade e realização que é quase cruel, pra não falar doentia.

Mas o menino Chaves não.
O Chaves não queria que o bandido fosse encontrado, julgado e punido.
Queria que ele se arrependesse, se tornasse bonzinho e, assim, todos os envolvidos, tanto a sociedade quanto o ladrão, sairiam ganhando.

Era um ensinamento perfeito sobre relações humanas, compaixão e até solidariedade com o próximo que, na época, quando assistimos ao programa, nem parecia assim, tão profundo, mas que hoje me atingiu de forma bastante peculiar.

Somos tão maus com os seres humanos que não fazem parte do nosso círculo moral, religioso, ético, etc, que nem paramos pra pensar que o outro tem uma história de vida diferente, uma forma diferente de encarar a realidade e dificuldades que nós não podemos compreender totalmente.

Pararam pra pensar nisso?
 

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Papo Cabeça

Rafael Cavacchini

Rafael Cavacchini

Empresário, romancista, redator, crítico político e antropólogo. Escreve utilizando linguagem ácida e direta, sem abandonar a ética nem apelar pra demagogia desnecessária.

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