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Publicado: Terça-feira, 16 de março de 2010

Odete e o chefe

O Orfanato Santa Cecília abrigava meninas carentes de zero a dezoito anos.

Era muito bem dirigido por madres que propiciavam às acolhidas uma boa educação, mas exigia uma disciplina rígida, uma vida austera dedicada apenas ao estudo, trabalho e práticas religiosas.

Quando as meninas completavam dezoito anos, as madres as encaminhavam para casas de família para trabalharem como domésticas e a partir daí elas tornavam-se independentes.

Como é natural, ansiavam por esse dia.

O mundo lá fora lhes parecia um não acabar mais de maravilhas das quais elas se sentiam privadas no internato.

Muitas se desencantavam e chegavam a sentir saudade da segurança e da tranqüilidade do orfanato. Outras se davam bem e guardavam no coração a lembrança de sua infância reprimida, mas protegida.

Odete, como as demais, despediu-se das madres e das companheiras para ir trabalhar na casa de dona Ernestina.

A patroa era bondosa, ela tinha um quarto confortável e liberdade para ir e vir, depois que terminava seus afazeres, entretanto sentia-se muito só, deslocada, sem saber por onde começar a nova vida.

Ela queria muito continuar os estudos, fazer uma faculdade, mas o seu salário não era suficiente para isso.

E foi então que conheceu Armando, um pedreiro que esteve alguns dias trabalhando numa pequena reforma na casa.

Armando gostou de Odete e os dois começaram a namorar, mas ela apegou-se a ele mais por carência do que por amor.

Era alguém com quem conversar, uma companhia para sair e nada mais.

Quando se instalou na cidade uma nova empresa e ela soube que precisavam de uma moça para o cargo de secretária do chefe, candidatou-se.

Apesar de nunca ter trabalhado, seu currículo era bom. Tinha algum conhecimento de informática, de contabilidade, um bom inglês, um ótimo português e, talvez isto fosse o principal, boa aparência. Odete era muito bonita.

Foi contratada com um ótimo salário e ficou felicíssima.

Quando foi conhecer o seu chefe teve uma surpresa. Ele não era, como ela imaginara, um cinquentão que a olharia do alto de sua imponência, mas um rapaz pouco mais velho do que ela, o qual a recebeu com um sorriso pedindo para chamá-lo de você e dando a entender que seriam bons amigos.

Trabalhar com o Alberto era um prazer para Odete. Ele era atencioso, gentil e os dois conversavam muito de igual para igual. Ela chegava a esquecer que ele era o seu chefe, o filho do dono da empresa, rico e mimado enquanto ela era uma órfã pobre lutando bravamente para conquistar um lugar ao sol.

Alberto tinha uma namorada, a Alessandra, que morava no Rio e sempre telefonava pra ele no horário de serviço. Odete passava-lhe o telefone e, discretamente saia dar uma volta, tomar um cafezinho, mas sentia raiva da outra. O que tinha que telefonar esta hora quando ele estava trabalhando?

Odete não tinha nada com isso.

Ou tinha?

A verdade é que ela estava se apaixonando pelo seu chefe.

Sabia que estava resvalando para um caminho perigoso. Ele nunca ia se apaixonar por ela ainda mais tendo outra namorada. Ela namorava o Armando e, embora não morresse de amores por ele, devia-lhe fidelidade.

A amizade entre Odete e Alberto cada vez intensificava-se mais. Os dois gostavam de futebol, ele torcia pelo Fluminense e ela pelo São Paulo, mas combinaram que, quando o jogo fosse com outros times, os dois torceriam pelos dois tricolores.

Quando os times do coração jogavam, eles assistiam, cada qual em sua casa, mas sempre que algo importante acontecia, ele ligava para ela para comentar.

Armando não gostava de futebol. Implicava um pouco por Odete querer assistir os jogos e é claro que implicava mais ainda com o Alberto ficar telefonando para comentar.

Alberto que no começo ia todo fim de semana ao Rio encontrar-se com a Alessandra, começou a espaçar essas visitas e um dia disse a Odete que terminara o namoro.

Odete ficou esperançosa. Quem sabe agora ele se interessaria por ela?

Mas, e o Armando? Tinha que terminar esse namoro, mas não sabia como. Ela gostava dele, não queria magoá-lo e reconhecia que ele era muito mais adequado para ela. Alberto pertencia a outro mundo, não ia querer nada mais sério com ela.

Alberto vivia falando em parar de fumar, mas não chegava o dia de tomar uma decisão. Até chegava a deixar por uns dias, mas acabava sempre recaindo.

Naquela tarde, ele conversava com Odete sobre isso e de repente tirou a cigarreira do bolso e deu a ela:

- Guarde de lembrança minha. Nunca mais vou fumar.

Odete pegou a cigarreira sofisticada e disse:

- Isto está parecendo presente de namorada. Foi a Alessandra que lhe deu?

- Foi, mas o namoro acabou, o vício acabou, não tenho por que guardar isso.

Odete abriu a cigarreira e viu num compartimento interno uma foto de uma moça. Devia ser a Alessandra, é claro.

- Nem a foto você vai guardar?

- Oh! Dê-me a foto.

Guardou-a no bolso e Odete percebeu que nem tudo havia acabado.

Quando Odete contou ao Armando o incidente ele ficou furioso:

- Esse cara está te cantando!

- Que absurdo!

- Eu acho melhor você arranjar outro emprego.

- Você está louco! Não vou sair de lá nunca! A menos que o Alberto me demita.

Acabaram brigando e o Armando saiu irado e passou vários dias sem aparecer.

Chegou o dia dos namorados.

Alberto chegou no escritório com uma caixa de bombons e disse a Odete:

- Trouxe uns bombons para comermos juntos e festejarmos o dia dos sem-namorados.

Aquilo soou para Odete como uma declaração de amor.

Mas a noite o Armando apareceu com um presente para ela e os dois acabaram fazendo as pazes.

Alberto e Alessandra também voltaram a namorar e tudo voltou ao que era antes.

Odete percebia que não era indiferente para Alberto, mas achava que ele não queria se envolver com ela por causa da diferença social. Ou seria por causa do Armando? Ou da Alessandra?

Odete estava confusa, sem saber o que pensar.

Quando Alberto falou a primeira vez que o pai ia instalar uma sucursal no exterior e queria que ele fosse gerenciar, Odete ficou arrasada. Agora tudo estava acabado. Era casar-se com o Armando e recolher-se a sua insignificância.

Mas alguns dias depois Alberto lhe disse:

- Eu quero que você vá comigo.

- Como? Vou continuar sendo a sua secretária?

- Não. Eu quero você para minha esposa. Quer casar-se comigo?

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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