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Publicado: Segunda-feira, 20 de julho de 2009

O vovô Chiquinho

Nasceu a Cláudia!
Lar em festa! Alegria geral!
 
A família era pequena. Duas irmãs, Noêmia e Isaura, dois primos, Thiago e Victor e a Vovó Luíza.
Agora a família de Noêmia tinha aumentado, chegara a Cláudia.
 
Thiago, pela enésima vez chegou até o vidro do berçário e espiou a irmãzinha dormindo.
 
 - Como ela é linda! Parece uma bonequinha!
 
Não via a hora de levá-la pra casa, poder carregá-la, brincar com ela.
Alguém chega a seu lado e ele surpreende-se:
 
- Vovô!
 
Vovô Chiquinho fora um amigão dos netos.
Era ele que os levava a escola, ajudava nas lições, contava histórias e, nos fins de semana, iam ao cinema, ao circo, ao parque, ao estádio de futebol, etc.
Quando acampavam em uma praia, então, divertiam-se como nunca.
 
Com o Vovô tudo era permitido. Comiam o que, quanto, quando e se queriam; tomavam banho, se tinham vontade e só escovavam os dentes se achavam que era preciso.
 
O interessante é que, quando estavam com o avô, nada fazia mal. Thiago tomava “toneladas” de sorvete e não tinha crises de bronquite e Victor empanturrava-se de chocolates e não tinha alergia. Andavam descalços e não machucavam o pé, tomavam sol e chuva e não ficavam doentes.
 
Só uma vez ele não se deu muito bem quando levou um afilhado gordinho com eles.
A mãe deu a listinha do regime, pedindo que não liberasse nada porque ele precisava emagrecer dez quilos.
 
É claro que o Vovô não deu importância às recomendações e o garoto engordou cinco quilos em uma semana.
A comadre queria matar o compadre Chiquinho!
 
Mas, um dia, toda essa felicidade foi por água abaixo.
 
As crianças já haviam notado um clima de mistério, os pais com cara de preocupados e a avó chorosa, quando as palavras sucintas das mães caíram como uma bomba sobre os dois garotos:
 
- O Vovô Chiquinho foi embora.
 
- Por quê?
 
- Porque ele não gosta mais de nós. Vocês têm que esquecê-lo. Não vão vê-lo nunca mais.
 
- Por quê?
 
- Porque sim! E não perguntem mais nada que isto não é assunto para crianças.
 
Como as mães, às vezes, são ingênuas!
Pensam que podem simplesmente passar uma esponja sobre os sentimentos de uma criança e tudo se anula sem maiores problemas.
 
Thiago e Victor sentiram muito a falta do avô.
Thiago, o mais novo, perdeu o apetite, começou a dormir mal e a chorar por qualquer motivo.
 
Victor tornou-se irritado, desobediente, briguento.
Os pais, desesperados, fizeram de tudo, agradaram, levaram ao psicólogo e acabaram perdendo a paciência, ralhando, dando palmadas.
Nada adiantou.
 
Só o tempo, poderoso remédio para os males da alma, conseguiu, por fim, apaziguar seus coraçõezinhos.
 
Os meninos, apesar de o assunto ser mantido em segredo em casa, não demoraram a descobrir a verdade: o Vô Chiquinho deixara a Vovó para ir viver com a Dolores, uma mulher que morava na mesma rua e que todo mundo conhecia.
 
Para eles o caso não era tão escandaloso assim. Tinham colegas cujos pais eram separados e o Papai vinha visitá-los, levava-os a passeio, dava-lhes presentes e eles não pareciam sofrer por isso.
 
Por que eles não podiam continuar vendo o Vovô?
 
Quando tentaram argumentar com as mães elas disseram simplesmente:
 
- Porque o que ele fez é errado e a gente não pode pactuar com coisas erradas.
Eles não tiveram coragem de voltar ao assunto, mas eram crianças e acabaram se acostumando com a falta do avô.
 
Agora o Vovô estava ali e tudo veio à tona, as antigas lembranças, a mágoa, a saudade.
 
Thiago chorava e o avô continha a custo a emoção.
De repente mais alguém apareceu a seu lado, a Vovó Luiza.
 
Os ex-esposos cumprimentaram-se meio constrangidos:
 - Desculpe, quando soube do nascimento da netinha não resisti ao impulso de vir vê-la.
 
- Não tem do que se desculpar. Todos nós erramos e acho que é tempo de procurarmos amenizar essa situação. Vou conversar com as meninas.
 
Algum tempo depois o Vovô Chiquinho recebeu um convite para a festa do batizado da Cláudia.
 
Convite endereçado a Chiquinho e Dolores.

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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