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Publicado: Sábado, 2 de junho de 2007

O Vinho do Papa

Crédito: Divulgação/Diocese de Jundiaí O Vinho do Papa
Pedro Maziero (esq) e Salathiel de Souza (dir)
Faz exatamente um mês que Bento XVI desembarcou na tão festejada visita que fez ao Brasil. Ainda repercutem suas palavras, seus gestos, a grandiosidade das missas que celebrou, os lugares pelos quais passou. Ao longo dos anos, certamente milhões de pessoas poderão recordar o que viveram nesse importante momento para a Igreja. E apesar de não ter participado diretamente e de não estar presente em qualquer dos eventos organizados, também tenho a minha estória para contar.
 
A serviço do jornal O VERBO precisei me dirigir até a Vinícola Maziero, localizada no Caxambu, em Jundiaí. Foi de lá que saiu o vinho usado por Bento XVI na celebração eucarística realizada no Campo de Marte, em São Paulo, para cerca de um milhão de pessoas. Depois de provar amostras de várias vinícolas, a comissão encarregada de cuidar da liturgia e do cerimonial da missa do Campo de Marte acabou escolhendo mesmo o vinho dos Maziero. A fim de ilustrar uma reportagem, eu precisava de fotografias do senhor Pedro Maziero, que fez a doação de 30 litros de vinho rosè suave fabricados especialmente para aquela missa.
 
A região do Caxambu tem muitas vinícolas, tantas que até se organizaram em uma associação. Como desconhecia aquele lado da cidade, pouco habituado que estou com Jundiaí, pedi que o Padre Paulo Toni Júnior, da Paróquia Senhor Bom Jesus, me acompanhasse, pois os proprietários da vinícola são seus paroquianos. A família Maziero atua no ramo há quase 130 anos, passando a arte de fazer vinho de geração para geração. Seu Pedro trabalha com isso desde garoto e percebe-se como gosta do que faz. É uma pessoa muito simples e aberta, falando com qualquer estranho como se o conhecesse há anos e anos.
 
Logo na chegada fizemos algumas fotos, seu Pedro segurando as garrafas de vinho doadas para a missa de Bento XVI. Ele também enviou ao Santo Padre duas garrafas de vinho tinto seco, dentro de lindas caixas de madeira, acompanhadas de um cartão. Era o presente pessoal da família ao Sumo Pontífice. Seu Pedro me leva a conhecer toda a vinícola e pude conferir de perto os enormes tonéis de carvalho, a imensa adega com os vinhos já engarrafados.
 
Depois da sessão de fotos, o clima foi se descontraindo. Era tanta a simpatia de seu Pedro que eu já me sentia seu conhecido há anos. Parecia que estava em casa, tamanha era a hospitalidade. Ele me contou sua rotina ali na vinícola, dizendo que praticamente só pára de trabalhar para fazer as refeições durante o dia.
 
De acordo com seu Pedro, o movimento na vinícola aumentou imensamente depois que a imprensa regional espalhou a notícia de que os Maziero fariam o vinho da missa para Bento XVI. O número de clientes sempre foi grande, principalmente nos finais de semana. Mas nada se comparou até hoje à média de 700 pessoas que passaram a freqüentar a vinícola entre sábados e domingos. Pensando em popularizar sua marca, ele pensa em engarrafar o vinho rosè suave e batizá-lo como “Vinho do Papa”. Porém, não sabe se isso é permitido e a idéia está em fase de estudo.
 
Quase acabando o meu dever, ia me despedir de seu Pedro quando ele me interrompeu: “Mas você veio até aqui e não quer experimentar o vinho do Papa?”. A pergunta me pegou de surpresa. Então ele me levou até um outro tonel, um pouco menor e disse: “Foi aqui que coloquei o vinho feito para o Papa”. Abriu a torneirinha e encheu meia taça para mim. Bebi o vinho, que tinha uma doçura suave e muito agradável.
 
Naquele dia cheguei em casa dizendo: “Hoje eu bebi o mesmo vinho que Bento XVI vai beber!” e fiquei feliz por ter ao menos uma historinha para contar. Foi no meu carro que levei os 30 litros da vinícola para a Cúria Diocesana, de onde seriam levados para a missa no Campo de Marte no dia seguinte.
 
Finalmente me despedi de seu Pedro, sem saber quando conseguiria visitá-lo novamente. De presente ele me deu duas garrafas da sua produção, uma de vinho tinto seco e outra do vinho rosè sauve. Seguindo o conselho dos cardiologistas, diariamente estou tomando uma taça de vinho dos Maziero. E ao ingerir me recordo de estar bebendo o vinho do Papa.
 
Amém.
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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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