Colunistas

Publicado: Segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

O sonho do menino pobre

- Vai um pacote de limão ai, doutor?
- Tira esse dedo sujo do vidro de meu carro.
- Mas eu não estou fazendo nada errado. Estou tentando vender os limões.
- Conheço essa história. Vem vender limão para disfarçar. Você não passa de um trombadinha.
- Não, senhor! Sou pobre, mas não sou ladrão.
- Sai dai moleque, senão eu chamo a polícia.
- Vai um pacote de limão ai?
- Você devia estar estudando e não andando pela rua desse jeito, não sabe que é perigoso?
- Mas eu preciso ajudar a minha mãe.
- Precisa estudar para ser alguém na vida, isso sim! Que pensa que vai ser quando crescer?
- Eu vou ser o Presidente da República.
- Ha! Ha! Ha!!Ha! Ha! Ha! Me dá um pacote de limão. Vou comprar para ajudar a sua campanha! E quando você chegar lá eu quero ser um dos ministros, não se esqueça!
 
Abre o sinal. Todo mundo se movimenta e o menino vai andando pela calçada, dizendo com seus botões:
- Eles vão ver! Todo Mundo vai ver! Vou ser o Presidente. Todos vão me chamar de Excelência!”
 
A idéia nascera há poucos meses quando assistira na televisão da vizinha a posse do recém eleito Presidente.
 
Ficara fascinado com a cerimônia. O figurão fazendo discurso, falando bonito, ao lado da primeira dama, chiquérrima.
 
Um dia ele estaria lá. Já estava resolvido. Tão importante quanto aquele doutor ao lado da sua primeira dama. Quem seria ela? A Edeusita? A Estefaní? A Chirle? 
 
Não, a sua primeira dama não seria nenhuma daquelas meninas de favela, mal vestidas, de cabelo embaraçado e pés encardidos. Seria uma moça da alta sociedade, bonita e cheirosa, de família importante, pois, então, ele também seria muito importante.
 
A mãe, recém chegada do nordeste com a criançada miúda, cheia de necessidades, não levava a sério o sonho do garoto.
- Você trate de aprender um ofício, arranjar um emprego, viver com honestidade, que é melhor. Não precisa ser rico nem importante para ser feliz.
 
O menino ouviu, em parte, os conselhos da mãe. Muito jovem ainda, tornou-se um operário e foi trabalhar em uma grande indústria.
 
Mas não abandonou o seu sonho. Pelo contrário, procurou os caminhos que o conduziriam um dia ao Planalto e, pacientemente, dispôs-se a percorrê-los passo a passo. Participou de todos os movimentos do operariado, fez parte de sindicatos, tornou-se líder entre os colegas, conquistou amigos e admiradores.
 
Até que um dia conseguiu candidatar-se, pela primeira vez, para o cargo, mas não ganhou a eleição. Nem na segunda... Nem na terceira...
Um belo dia, porém, a sua fada madrinha resolveu realizar o seu sonho Ele foi eleito Presidente da República com direito a seção solene de transmissão do cargo, faixa presidencial, discursos, etc.
 
Por que não?
O sapato novo apertava-lhe o pé, a gravata sufocava-o, mas tinha que aprender a usá-la, agora.
 
Paciência! Tudo tem seu preço! Só que ele não imaginava o preço que teria que pagar por aquilo.
 
Quando confessou que tinha medo de voar, o país inteiro sorriu maliciosamente, como se metade da população não sentisse um friozinho na barriga quando o avião decola. É claro que a maior parte das pessoas não admite isso e se admite, ninguém estranha, isto é, se se tratar de um simples mortal, mas, não, o Presidente.
 
Mas, tudo bem! Paga-se qualquer mico pela realização de um sonho!
 
Só que ele descobriu bem cedo que não poderia ser o Salvador da Pátria. Na máquina administrativa ele era apenas uma peça, mais ou menos decorativa. Não podia fazer as coisas de seu jeito e nem adquirira de repente o poder de realizar maravilhas com um estalar de dedos. Teve que admitir para seus eleitores que suas promessas não passavam de bravatas que ele não podia cumprir nada do que prometera e foi vaiado por aqueles que o tinham aplaudido, dado a ele o seu voto de confiança.
 
De bom menino, jovem empreendedor e esforçado, homem inteligente e determinado, tornou-se uma figura ridícula, fraca, desalentada, profundamente decepcionada.
 
Um dia, então, burlando a Segurança, pegou seu carro particular, aquele, velhinho, que usava nos seus tempos de operário, e saiu pela rua dirigindo, ele mesmo, como há tempos não fazia.
 
Parou num sinaleiro e um garoto aproximou-se, e, sem reconhecê-lo, bateu no vidro: “Vai meia dúzia de limão bem fresquinho?”
 
O Presidente baixou o vidro, pegou o saquinho de limões, pagou com uma moeda e perguntou-lhe:
- Que você quer ser quando crescer?
 
O menino respondeu:
- Quero ter uma quitanda.
 
Sorriu tristemente para o garoto, deu-lhe mais um trocado e lhe disse:
- Vá guardando que um dia você compra uma quitanda, e acrescentou para si mesmo:
“Tomara que não se decepcione”.
 
O sinal abriu, acelerou o carro misturando-se a multidão anônima com um nozinho na garganta, não sabia bem por que...
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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