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Publicado: Sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

O Senhor do Caminho

Sim, Senhor. Eu sei que fui avisado. Eu sei que recebi de Ti inúmeras mensagens. Cada uma delas eu escutei e meditei. Cada uma eu refleti e compreendi. Nada poderia me demover da idéia de quão corretos são os teus preceitos. E mesmo assim, saí do Teu caminho...
 
Tinhas um caminho lindo para mim. Limpo e seguro, que me conduziria na alegria e no amor, para cada vez mais perto de Ti. Aparentemente, um caminho igual a tantos outros. Mas com uma diferença essencial: nele, Tu caminhavas comigo.
 
Ensinavas-me a cada curva, me mostrava cada buraco encontrado. Na subida, me davas força. Na descida, me seguravas. No descanso das planícies, poderia eu desfrutar da Tua amizade e companhia.
 
Por que nos permites tão imperfeitos, seres incapazes de caminhar por conta própria? Por que deixar tão evidente a nossa capacidade para o erro e para o fracasso, quando estamos fora do Teu caminho? Sem Ti, somos como crianças que ainda não sabem andar: tropeçamos, escorregamos, mal paramos em pé.
 
E mesmo assim, saí do Teu caminho... Saí como muitos outros o fazem todos os dias, uns para nunca mais voltar. A vida é uma viagem sem volta, não há retorno. Nada pode apagar os passos que deixamos gravados na estrada atrás de nós. Mas Tu, ó Senhor do Caminho, protege cada passo que dado na sua presença.
 
O que moveu meus pés para fora do Teu caminho? A falta de fé, a inveja, o orgulho? Aos poucos fui caminhando para outras veredas e me afastando de Ti. Sua presença tornou-se uma sombra no horizonte distante. Cada passo dado para longe de Ti, fazia ficar mais distante também a paz, a segurança, o amor.
 
Os caminhos que tomei, por iniciativa própria, me levaram a trilhas escuras e sombrias. A ameaça era uma constante, o medo se fez presente. Cada passo era gravado no solo com o peso da inconseqüência. Em cada curva, uma armadilha. As subidas tornaram-se intransponíveis. As descidas viraram abismos. Em cada buraco, uma queda. E em cada pedra, um tropeço.
 
Cansado da caminhada, com os pés e joelhos feridos, com as pernas doídas. Com o rosto em terra, lembrei-me de Ti e do Teu caminho. Recordei a felicidade de andar sempre contigo e quis voltar atrás. Porém, nada pode apagar os passos que deixamos gravados na estrada atrás de nós.
 
Foi então que me alcançastes. Senhor do Caminho, andas também por todos os outros que desejares. E assim, foi me encontrar abatido pelas dores e temeroso das trevas. Na emoção do reencontro, fizestes com as lágrimas saídas dos meus olhos o óleo necessário para acender a lanterna e iluminar novamente o caminho. Na enorme pedra em que tropecei, pusestes uma tábua para transformá-la em alavanca. Da minha queda, soubestes tirar também o meu soerguimento.
 
Quem sou eu, Senhor do Caminho, para que venhas atrás de mim? Quanto valho por esse esforço de me erguer e me reconduzir à caminhada contigo? Não seria mais óbvio deixar-me ali, sofrendo a conseqüência do que busquei com meus próprios pés? Porém, os Teus atos falam mais do que os meus pensamentos. Tomas-me pelas mãos, me cura as feridas dos pés e dos joelhos. Permite que me apóie em ti e descanse um pouco as minhas pernas cansadas.
 
Senhor do Caminho, estou de volta a andar contigo. O sol ilumina a estrada, minhas pernas e pés se fortaleceram. Estou mais atento com os desvios que aparecem pelo caminho e pronto a rejeitá-los, pois me livraste de ficar para sempre à beira de uma estrada infeliz. E a partir de agora, cada passo meu será uma oração de louvor a Ti. Cada etapa da jornada será uma vitória Tua.
 
Amém.
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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é sacerdote católico apostólico romano e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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