Colunistas

Publicado: Segunda-feira, 3 de março de 2008

O resgate

-Alô! É da Prefeitura Municipal?
- Sim.
- Eu gostaria de falar com o Sr. Prefeito.
- Qual o assunto?
- É particular. Tem que ser com ele mesmo.
Em plena campanha eleitoral, o Prefeito, no intuito de tornar-se simpático, dera ordem aos seus funcionários para que passassem para ele todas as ligações. Ele conversaria pessoalmente com todos que o procurassem.
Este, era apenas um garoto, mas, ordem é ordem.
- Alô! É o Sr. Prefeito?
- Sim.
- Aqui é o Mário Souza de Campos Pedroso.
- E o que você deseja?
- É o seguinte: a Biucha é a minha cachorrinha de raça, lindinha, bem tratada, vai ao veterinário regularmente, vai ao salão de beleza todos os meses e, agora que ela está mocinha eu quero que ela cruze com um cachorrinho da mesma raça e do mesmo nível dela, o senhor não acha que eu tenho razão?
- Certamente...
- Acontece que tem um cachorro de rua, da pior espécie, todo pulguento, que vive largado na rua e, agora, deu de paquerar a Biucha, Fica o tempo todo rondando o nossa casa e cada vez que a gente abre o portão ele invade o quintal e dá um trabalhão para botar ele para fora. Agora ele entrou na área de serviço, embaixo do tanque, e ameaça de morder quem chega perto.O senhor não acha que isso está errado?
- Claro, mas que você quer que eu faça?
- Quero que mande a Carrocinha pegar o vira-lata.
- Mas eu não posso fazer isso. A carrocinha tem um esquema de trabalho. Não posso deslocá-la fora do seu horário para pegar um único animal.
- Mas não é proibido deixar cachorro solto na rua?
- É ....
- E não é atribuição da Prefeitura prender os infratores?
- É. Mas você tem que aguardar o dia e hora determinados para esse serviço.
- Mas, senhor Prefeito...
Desligou!
- Mas isso não vai ficar assim! Vou dar parte desse Prefeito! Ele não ganha para cuidar dos interesses do município? Como é que não vai tomar uma providência contra esses bichos vagabundos que perturbam as cachorrinhas de boa família?
- Alô!
- É da Delegacia de Polícia?
- Sim.
- Eu tenho uma denúncia contra o Sr. Prefeito.
- Contra o Prefeito?! O que foi que ele fez?
- Imagine o senhor que eu telefonei para ele para pedir que mandasse prender um cachorro que anda molestando a Biucha, minha cachorrinha de raça, etc, etc, etc, e ele, simplesmente, me disse que não vai fazer nada e ainda desligou o telefone muito deseducadamente na minha cara. E o pior é que eu acho que o cachorro está louco... (resolveu apelar...)
-Você está coberto de razão. Eu vou passar o telefone para o Chefe dos Bombeiros. Acho que ele vai lhe ajudar.
O Serviço do Corpo de Bombeiros acabava de ser instalado. A guarnição, os carros, todo o equipamento estava pronto, mas não houvera ainda nenhuma ocorrência que necessitasse de seus serviços.
- Alô!
- Eu tenho uma cachorrinha chamada Biucha, blá, blá, blá. Por favor, venham buscar o cão. Eu acho que ele está louco...
- Pois não! Me passe o endereço que estaremos ai em dez minutos.
O carro de bombeiros, em alta velocidade, com a luz vermelha acesa, pisca-piscando, tocando a sirene, cruzou a cidade chamando a atenção da população que ainda não estava habituada com seu estardalhaço.
Quando parou diante da casa do menino e os soldados, armados de cordas e focinheira adentraram correndo o quintal, os vizinhos ficaram assustados.
Os pais do garoto estavam trabalhando. Ele estava em casa com a irmã adolescente. Que teria acontecido?
Em questão de minutos a rua estava cheia de gente. Fazia-se conjecturas, falava-se de incêndio, de acidente, de desastres de toda espécie.
Mas, logo o bombeiro saiu carregando o cãozinho fogoso, sorrindo divertido com a gravidade de sua primeira atuação.
 
No dia seguinte, o jornal da cidade, ávido de notícias sensacionais, trazia a manchete na primeira página:
 
BOMBEIROS SALVAM DA MORTE DUAS CRIANÇAS AMEAÇADAS POR BRAVO CÃO HIDRÓFOBO
 
E, na seção policial, a notícia na íntegra:
 
Duas crianças que se encontravam em casa, enquanto os pais trabalhavam fora, foram surpreendidas por um enorme cão hidrófobo que invadiu o quintal ameaçando atacá-las e, só não se consumou uma desgraça, porque o garoto teve a iniciativa de acionar o Corpo de Bombeiros.
Os denodados homens do fogo, numa demonstração de coragem e de habilidade, dominaram o perigoso animal, salvando a vida das duas crianças e acrescentando mais um ato de bravura à sua história pontilhada de feitos heróicos...
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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