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Publicado: Segunda-feira, 23 de março de 2009

O Reencontro

Eram muito jovens, apaixonados e cheios de ilusões. O casamento estava, ainda, muito distante nas cogitações, mas os dois, Alê e Kel, faziam planos como se fosse só estalar os dedos para que tudo se realizasse imediatamente como nos contos de fadas.
 
Ambos gostavam de arquitetura, paisagismo, decoração e pretendiam até, futuramente, trabalhar nessa área, mas, no momento o que queriam mesmo era sonhar.
 
Planejavam construir uma bela casa de campo para morarem quando casassem e divertiam-se desenhando a planta e discutindo os detalhes.
 
- Uma casa bem grande com varanda a volta toda...
- Uma piscina e um amplo espaço para recebermos os amigos.
- Um roseiral a perder de vista....
- Rosas de uma só espécie, ou variadas? Como será mais bonito?
 
Mas, o Pai do Alê foi transferido e toda a família mudou para muito longe. Kel sofreu um pouco, mas logo esqueceu. Na adolescência as grandes paixões são facilmente descartadas e rapidamente substituídas.
 
Ela teve outros namorados, casou-se, mas não foi muito feliz no casamento. O marido faleceu cedo e ela passou a maior parte de sua vida trabalhando muito para sustentar o filho.
 
Agora já aposentada, o filho casado, estava absolutamente só, porém, bem disposta e cheia de vigor. Pela primeira vez na vida estava completamente livre, sem amarras profissionais nem familiares. Podia fazer tudo o que tivesse vontade!
 
Uma tarde, tomou um ônibus na cidade e sentou-se na única poltrona vaga, ao lado de um senhor, sem prestar muita atenção. Mas, quando olhou melhor, levou um choque. Seria Ele? Tão parecido! Mas, quarenta anos é muito tempo, as pessoas mudam...
 
Ele também olhou para ela e a mesma dúvida o assaltou: Seria Ela? Depois de alguns olhares fortuitos ele arriscou:
- Você não é a Kel?
- Alê! Que surpresa! 
 
Começam a conversar. Tinham tanto o que contar! Ele também estava só. Os filhos já tinham casado e a esposa falecera havia pouco tempo. Agora, aposentado, resolvera voltar às origens. Comprara um terreno e estava formando uma pequena chácara.
 
Ela pergunta, com uma ponta de malícia:
- Com uma grande casa com varanda a volta toda?
 
Ele ri.
- Uma piscina e um grande espaço para receber os amigos?
- Você ainda tem a planta que desenhamos?
- Não, mas me lembro dos mínimos detalhes. Posso desenhá-la novamente.
- Você precisa ir conhecer o meu sítio e me ajudar a resolver coisas importantes como, por exemplo, se devo plantar roseiras variadas ou escolher uma única espécie...
- Sem dúvida...
 
O ônibus se aproxima do ponto final. Ele pergunta:
- Aonde você vai?
- Eu ia ao dentista, mas já passei do ponto e já perdi mesmo o horário. Fica para outro dia. E você?
- Eu ia à Prefeitura...
 
A Prefeitura já tinha ficado, há muito, para trás. O ônibus pára. Os últimos passageiros levantam-se.
 
Ele convida:
- Vamos tomar um sorvete?
- Para você, de creme russo e passas ao rum.
- E, para você, duas bolas “bem cheias” de abacaxi, com “bastante” calda de chocolate quente, uma concha ”bem grande” de chantili e “duas” cerejas.
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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