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Publicado: Terça-feira, 28 de agosto de 2018

O Psicodélico Mundo Sem Fronteiras

Crédito: Internet O Psicodélico Mundo Sem Fronteiras
Cantar "Imagine" não resolve coisas sérias.

Recordo minha casa de infância. Terreno grande, sala e dois quartos, dois banheiros, copa e cozinha, área de serviço, etc. Um porão servia de depósito e lugar de brincadeiras, assim como o quintal enorme com uma horta e várias árvores frutíferas. Na garagem caberiam dois carros, mas não tínhamos nenhum. Um muro alto, com cacos de vidro para evitar que alguém escalasse. Um portão de ferro, com lanças pontiagudas na parte de cima. Creio ser esta, ainda hoje, a configuração básica de inúmeras residências brasileiras.

Certa vez a campainha tocou perto do horário da janta. Sabe como é criança: minha irmã e eu corremos para ver quem era. Tratava-se de um andarilho, mendigando comida. Chamamos a mãe, claro. O cheiro do jantar já se espalhava pela casa toda. A mãe chamou o pai e foram falar com o tal peregrino. Para nosso espanto, deixaram o sujeito entrar. Aquele senhor de meia idade preferiu ficar sentado na garagem à espera da refeição. Como já era noite, depois meus pais ofereceram ao hóspede um colchão e cobertas. Então ele dormiu ali intramuros, partindo na manhã seguinte depois de comer uns pães, tomar café-com-leite e levar outros pães para outra hora.

Sempre que surgem temas relacionados a fronteiras ou refugiados, aparece alguém com sentimentalismo para dar pitaco num assunto tão sério. Há um resquício de psicodelia hippie em alguns analistas de hoje, para quem a solução sobre as questões da soberania nacional e o controle de fronteiras é apenas implantar o conteúdo do “Imagine”, de John Lennon, às legislações.

Um país sério controla sua  fronteira com muros, arame farpado, postos de alfândega e do exército, simplesmente pela básica questão da segurança. Não é qualquer um que pode ir entrando. Entra quem a gente deixa, igual na casa da gente. Analisar quem pode ou não entrar no que é nosso, é direito fundamental e que nem deveria ser discutido. O mesmo vale sobre o permanecer. O refugiado ou o imigrante que chega a um país, não tem o direito de estar ali. Ele será avaliado, seu caso será analisado, seu visto pode ser aprovado ou negado. E, se aprovado, deverá respeitar as leis e costumes locais, não se tornando um inimigo da sociedade tentando subverter e mudar todo um conjunto legislativo e cultural pré-existente.

Um problema é que o senso comum ensina as pessoas a enxergarem apenas um lado da moeda, quando na verdade a moeda tem vários lados: cara, coroa, em cima, embaixo, esquerda, direita, dentro e fora. Quando um país abre suas fronteiras indiscriminadamente também permite a entrada de bandidos, terroristas, traficantes em geral, etc. É óbvio que isso só traz problemas, como o pessoal na França, Bélgica, Alemanha, Itália e outros países europeus têm experimentado na pele.

Gostaria muito de saber qual seria a reação dos que acham viável um psicodélico mundo sem fronteiras caso o governo federal os obrigasse a derrubar os muros e portões de suas casas ou condomínios. E, depois, os obrigasse ainda a acolher em suas casas e apartamentos, duas ou três famílias de refugiados. Não quer um mundo sem fronteiras e que acolha todos sem distinção? Ué? Comece então a provar seu comprometimento com a idéia a partir da sua propriedade. Caso contrário, soa a demagogia.

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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é sacerdote católico apostólico romano e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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