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Publicado: Segunda-feira, 11 de julho de 2011

O piso da Candelária

Crédito: Antonio José Alves/Internet O piso da Candelária
Igreja Matriz voltará a ter piso original

Quem passa atualmente pela Praça Padre Miguel, verifica que a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Candelária está fechada. Apenas a porta lateral da Rua Barão do Itaim, que dá acesso à capela do Santíssimo Sacramento, permanece aberta à população.

O fechamento da Igreja Mãe de nossa cidade acontece por conta de uma nova fase das reformas pelas quais vem passando há mais de dez anos. Jóia da arte-sacra barroca no Estado de São Paulo, até o fim deste ano a Matriz da Candelária voltará a ter seu piso original.

Trata-se de uma obra trabalhosa, haja visto ser a Igreja Matriz do tamanho que é. Será retirado o piso de ladrilho hidráulico para a colocação de um piso de madeira. Iniciados os trabalhos, a Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Itu acionou o Ministério Público pedindo o embargo dos trabalhos.

A presidente da entidade, Ana Paula de Moraes Quinteiro Capelli, afirmou em entrevista ao Jornal Periscópio de 2 de julho, que a motivação para o pedido seria “preservar a história do monumento” (referindo-se à Igreja Matriz), após receber “reclamações de cidadãos que são contrários à reforma”. Além disso, alguns fiéis chegaram a questionar o uso da madeira no novo piso da Igreja Matriz, o que poderia ser ecologicamente incorreto justamente no ano em que a Campanha da Fraternidade tratou do tema.

Quanto à ação da Associação dos Engenheiros, talvez falte um olhar mais apurado sobre o que significa um processo de restauração, além de um certo conhecimento histórico. A Matriz da Candelária é tombado pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional) e qualquer reforma ou mudança estrutural deve ser aprovada por órgãos governamentais específicos, através de estudos minuciosos.

O objetivo de uma restauração é manter a originalidade do patrimônio em questão. Assim foi feito com o restauro do afresco localizado no forro do altar-mór, processo delicado que durou muitos meses e cujo resultado foi mais do que satisfatório.

Agora será a vez do piso. E a troca do ladrilho hidráulico pela madeira é mais que justificável. Em 1780, quando foi inaugurada, a Matriz da Candelária tinha originalmente seu piso de madeira. Somente em 1917 é que as mesmas foram trocadas pelo piso atual. Ou seja, em termos de preservação e originalidade continua-se no caminho correto. A volta do piso de madeira de modo algum descaracteriza a Igreja Matriz mas, ao contrário, a deixará ainda mais bela.

É óbvio que a comissão responsável pelas obras na Igreja Matriz apresentou aos órgãos competentes o projeto dessa atual etapa da restauração. E justamente por ter o objetivo de restaurar as características originais da Matriz da Candelária, é que o IPHAN autorizou o início dos trabalhos.

Não faz sentido, pois, a solicitação da Associação dos Engenheiros junto ao Ministério Público. Creio que a entidade poderia ocupar-se com outras questões de sua alçada no que diz respeito à nossa querida cidade, deixando os trabalhos de restauração da Igreja Matriz por conta dos membros de sua competente comissão e dos órgãos responsáveis.

Quanto ao uso de tanta madeira para refazer o piso original, talvez falte aprofundar o que a Igreja Católica pregou durante a Campanha da Fraternidade deste ano, sobre a preservação do meio-ambiente. Como o assunto é amplo, falemos apenas do que diz respeito à madeira.

O que a Igreja condena é o uso irresponsável, predatório e ilegal dos recursos naturais. É a ganância de quem desrespeita a lei, causando desmatamentos. É a exploração mesquinha das madeireiras, visando apenas o lucro em detrimento do patrimônio ambiental.

Não se pode confundir “uso” com “abuso”. Dentro de seu contexto particular, o uso de madeira para a restauração do piso original da Matriz da Candelária é totalmente aceitável e em consonância com o que prega a Igreja no que se refere à ecologia.

Os fiéis podem ter certeza de que não será usada madeira ilegal na colocação do novo piso da Igreja Matriz e isso é o que importa na hora de discutir sobre desmatamento. Há madeireiras ecologicamente sustentáveis, com programas de replantio e selos de autenticação internacional, reconhecidas por trabalhar com a madeira de forma responsável.

De forma geral é preciso aplicar o bom senso de sempre, tanto no que se refere aos objetivos da restauração quanto na questão da troca do piso da Igreja Matriz. O que não se pode é a radicalização sem fundamentos.

Caso contrário, poderíamos fazer um abaixo-assinado para que a Matriz da Candelária tivesse piso de lajota e forro de PVC; bem como outro solicitando à população que deixasse de usar seus automóveis, uma vez que a natureza também sofre a cada vez que qualquer um gira a chave na ignição para ligar os poluentes motores à combustão.

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Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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