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Publicado: Segunda-feira, 18 de maio de 2009

O Papai do Coração

Evelyn era uma adolescente como muitas outras, sonhadora, impetuosa, mimada, meio malcriada.
 
Filha de pais já idosos, tinha duas irmãs, Márcia e Célia, bem mais velhas do que ela que a estimavam muito.
 
Tinha, portanto, tudo para ser uma garota plenamente feliz, mas, desde muito criança percebera que havia alguma coisa especial com ela, que os pais não queriam que ela soubesse.
 
Por várias vezes ouviu cochichos mal disfarçados a seu respeito e amigas perguntando a boca pequena para a mãe dela: “ela não sabe?”.
 
Ficava curiosa, mas, algumas vezes que perguntou a mãe respondeu que não era nada com ela, que era assunto de gente grande e que era feio ficar ouvindo conversa de adultos.
 
Foi numa aula de biologia que ela descobriu o mistério. O professor explicava como são transmitidos os caracteres através dos genes e explicou por que, se num casal, ambos tiverem olhos claros, será impossível conceberem um filho de olho escuro.
 
A informação caiu como uma bomba em cima de Evelyn. Então o segredo era esse. Ela não era filha de seus pais que tinham olhos azuis, pois ela tinha olhos castanhos, bem escuros.
 
Mal chegou em casa, abordou os pais exigindo uma explicação e a mãe contou-lhe então, que, realmente, ela não era filha biológica deles, mas era do coração, etc.
- Quero saber toda essa história. Vocês não tinham o direito de me fazer acreditar que era sua filha legítima.
- Na realidade você é filha de uma moça que trabalhou como empregada em nossa casa. Ela me pediu para batizá-la e depois, vendo o quanto gostávamos de você quis que a adotássemos. Eu aconselhei-a a ficar com você. Disse que a ajudaria a criá-la, daria tudo que você precisasse, mas um dia ela fugiu de casa deixando você. Foi então que nós a adotamos.
- Você está mentindo! Não acredito que minha mãe me abandonou!
 
O pai interveio:
- Veja como fala com sua mãe!
- Ela não é minha mãe nem você é meu pai! São dois mentirosos que me enganaram a vida inteira! Garanto que vocês me roubaram da minha mãe verdadeira!
 
O pai avançou e só não lhe bateu porque a mãe o impediu. Mandaram-na para o quarto onde ela ficou emburrada até o dia seguinte. No outro dia ela comunicou aos pais que tinha resolvido sair de casa. Ia procurar sua mãe verdadeira.
- Alto lá, mocinha, diz o pai, você é menor e nós somos legalmente responsáveis por você. Você não vai sair de casa, coisa nenhuma. Se tentar eu ponho a polícia no seu encalço. Depois que tiver dezoito anos, se ainda estiver pensando nessa bobagem, pode ir para onde quiser. Antes disso você não sai daqui.
 
O pai era severo. Evelyn sabia que ele não estava brincando e resolveu ficar quieta e esperar. Desse dia em diante passou a chamá-los de padrinhos.
- Não se pode chamar “qualquer um” de pai e mãe, justificou.
 
 Não falou mais no assunto, mas não abandonou a ideia. Aliás, morar só, já era um velho sonho seu. Os padrinhos eram muito bons, mas exigentes e caretas, na sua opinião. Estavam sempre colocando limites, marcando hora para chegar em casa, querendo saber de tudo que ela fazia. Devia ser maravilhoso ter o seu próprio espaço, poder fazer tudo que quisesse sem dar satisfação para ninguém.
 
Sabia que para morar só, a primeira condição seria ganhar o próprio sustento e começou a preparar-se para isso. Fez um curso profissionalizante e, quando completou dezoito anos, já estava empregada ganhando um bom salário.
 
Realizou então o seu sonho de liberdade. Saiu de casa e foi viver a sua vida. Os pais não a impediram, mas aconselharam a desistir. Fizeram-na ver as dificuldades que iria enfrentar, o quanto ia perder com essa teimosia, mas ela foi irredutível, até que o pai perdeu a paciência com ela e disse categórico:
- Pois então vá! Mas saiba que se sair por esta porta nunca mais poderá voltar!
 
Evelyn foi morar em uma república, com umas colegas de faculdade. No primeiro momento ficou chocada. Um quarto diminuto era ocupado por quatro moças em meio à maior sujeira e desordem. Não pode deixar de lembrar-se do seu quartinho, tão limpinho e bem arrumado, seu banheiro privativo, sua roupa lavada e passada... Nunca se preocupou em saber quem fazia tudo isso, nem quanto custava. Agora, ou ela mesma fazia, ou pagava para alguém fazer e o que ela descobriu logo foi que o seu salário que era muito bom enquanto estava em casa, agora mal dava para sobreviver.
 
Suas companheiras recebiam visitas no quarto, moças e rapazes que ficavam até tarde conversando, fumando, bebendo, falando bobagens e impedindo-a de descansar.
 
No mês seguinte saiu de lá e foi para uma pensão para moças. Ali, teve que dividir o pior quarto (mais barato) com uma moça que usava drogas no próprio quarto enquanto a dona da pensão fazia vista grossa.
 
A comida era pouca e ruim e o preço consumia quase todo seu salário. Mal dava para pagar a condução e comprar algum material para a escola.
 
Como não conseguia pagar as mensalidades da faculdade, começou a atrasar, acrescentar juros e ficar cada vez mais endividada. A última coisa que queria era deixar de estudar, pois sabia que a sua única chance de melhorar de vida era conseguir fazer um curso superior.
 
Da pensão foi para uma edícula escura e úmida no fundo de uma garagem, e, assim, continuou mudando, de um canto para outro, sem encontrar um lugar decente que pudesse pagar. 
 
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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