Colunistas

Publicado: Sexta-feira, 18 de abril de 2008

O Nosso (E Somente Nosso) Expedito

Hoje posso sair de casa e, caminhando alguns metros pela Rua Santa Cruz, na região central de Itu, parar estrategicamente diante da Igreja de São Benedito. Não é tão imponente quanto a secular Matriz da Candelária, nossa jóia do barroco paulista. Mas é de uma beleza singular e característica, percebida desde que foi erigida e felizmente ainda hoje, graças ao bom cuidado dos que zelam por ela.
 
Tal cuidado é percebido também no interior desse templo, ainda hoje reduto principal dos afro-descendentes da cidade, que sempre ali demonstram sua devoção pelos santos católicos negros, como o Padroeiro local, Santo Antônio de Catigeró e, mais recentemente, Santa Josefina Bakhita.
 
Entre os santos de pele escura, negros como a cor do Universo, há porém um “intruso”. Trata-se de Santo Expedito, cuja imagem pode ser vista no lado direito do belo altar. No centro ituano, é a única igreja a dedicar um espaço a este santo que tantos devotos atrai para si, sendo inclusive um dos padroeiros de policiais e agentes da área de segurança.
 
A devoção é facilmente explicável. Em seu tempo, Expedito foi chefe da 1ª Legião Romana. Era um militar, portanto. Seu batalhão ficava estabelecido em Melitene, sede de uma das províncias romanas da Armênia. Como na época o imperador Diocleciano, iniciando seu reinado, era favorável aos cristãos, confiou a vários deles cargos importantes em sua administração e no exército. Expedito era um desses cristãos que mereciam a confiança imperial.
 
A legião comandada por Expedito era uma das mais conhecidas e competentes de todo o império, encarregada da defesa das fronteiras orientais contra os ataques dos bárbaros asiáticos. O chefe da tropa acabou sendo chamado de “Expeditus” pelos soldados, que verificavam nele a presteza e a prontidão que empregava no cumprimento de seus deveres. Era, além de exemplo de fé, uma liderança militar nata.
 
As atitudes do chefe aos poucos acabaram por converter toda a tropa. Quem ainda não era cristão, passava a ser. Expedito passou então a despertar o medo e a inveja do imperador Diocleciano, que mandou matá-lo junto com todos os seus companheiros de tropa. Expedito foi flagelado até sangrar e em seguida decapitado. Era o dia 19 de abril do ano 303, exatamente há 1705 anos.
 
Santo Expedito é, portanto, um dos primeiros mártires do cristianismo. A devoção à sua memória espalhou-se pelo Oriente e o Ocidente, especialmente em países como Alemanha, Itália, Espanha, França e Bélgica. Além dos militares, também é considerado o Padroeiro dos estudantes e dos viajantes, sendo representado nas imagens vestido com seu traje de legionário, segurando uma cruz na qual se lê a palavra latina “hodie” e pisando um corvo que grita “cras”.
 
Esse simbolismo presente nas imagens é fruto da história de sua conversão. Ao ouvir falar de Cristo, Expedito decidiu converter-se ao cristianismo. Porém, sempre adiava a sua decisão. Quando finalmente resolveu tomar uma atitude, a tentação apareceu-lhe na forma de um corvo.
 
O pássaro voava e gritava “cras”, que em latim significa “amanhã”. Decidido a “não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje”, Expedito pisoteou o corvo, venceu esta última barreira e aderiu à fé em Jesus. Baseado nisso é que muitos o consideram o “padroeiro das causas urgentes”, intercedendo naquelas situações em que a solução precisa ser “para hoje”.
 
Infelizmente, nos últimos anos uma certa “igreja” vem tentando se aproveitar da fé popular em torno de Santo Expedito. Sem ligações com a Cúria Romana ou com o Santo Padre, seus membros dizem-se apenas “brasileiros”. Fazem cartazes e convidam o povo a participar de “missas”. Como imitam em tudo a verdadeira Igreja Católica Apostólica Romana, acabam enganando a muitos desavisados...
 
Fique claro, pois, que Santo Expedito é nosso: católico, apostólico, romano. E aos fiéis que desejam realmente expressar sua fé nesse herói e mártir de todos os tempos, faço o convite de que compareçam no dia 19 de abril, dedicado liturgicamente à sua memória, à Igreja de São Benedito, na Rua Santa Cruz, na cidade de Itu.
 
Amém.
Comentários

Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

Arquivo