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Publicado: Sexta-feira, 23 de abril de 2010

O maior perdão da paróquia

O maior perdão da paróquia

Pedrinho fez a sua primeira comunhão quando tinha 9 anos de idade. Passava por uma fase de descobertas e uma delas foi uma forte curiosidade pela religiosidade tão fervorosa de sua tia Elmira. Passou a frequentar as missas aos domingos e a ler a bíblia com uma sagrada curiosidade.

Seu primeiro momento de forte embaraço e sinal de que não iria muito longe no mundo da religiosidade católica foi quando se viu obrigado a confessar-se, caso contrário não poderia receber a sua primeira comunhão. O garoto sentiu-se fortemente constrangido por aquela situação. Não se lembrava de nenhum pecado digno de nota. Chegar diante do padre e confessar um deslize qualquer pareceu muito pouco católico.

Pedrinho queria lembrar-se de um pecado digno de uma primeira comunhão. A fila, todavia andou muito rápido e o menino deparou-se com o padre José completamente desprovido de qualquer pecado digno de arrependimento verdadeiro; foi no improviso:

- Eu matei, seu padre!

O padre sorriu. Via na fisionomia comportada do pequeno Pedro a impossibilidade de um ato tão brutal, mas não conteve a sua teatral curiosidade:

- Você meu filho, matou alguém?

- Matei padre, mas estou arrependido.

Pedrinho sentiu-se orgulhoso, notou a perplexidade do padre José.

- Meu filho, eu não posso acreditar no que você está me dizendo, veja bem...

O garoto interrompeu ofendido:

- Então você não merece a minha confiança.

Levantou-se decidido e abriu a porta quando o padre José interrompeu-o:

- Volte aqui. O ato da confissão é um ato de honestidade consigo mesmo e, sobretudo com Deus. Você não deve mentir para ninguém, muito menos para Ele. Pense bem, não é possível que você não seja capaz de ser sincero diante de Deus, durante todo o curso...

Pedrinho sorriu satisfeito. Tinha um pecado para fazer inveja a qualquer facínora, um pecado digno de primeira comunhão.

- Padre, eu menti pra Deus.

Seguiu-se um longo sermão do padre José que Pedrinho ouviu convicto de que ninguém seria capaz de suplantar o seu pecado. Havia recebido o maior perdão da paróquia!

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O olhar de um nariz

Nando Bolognesi

Nando Bolognesi

Palhaço profissional e na vida. Fez parte do elenco dos Doutores da Alegria de 2001 a 2005. Trabalhou de 2005 a 2008, sempre como palhaço, com usuários de atendimento psiquiátrico. Faz parte do elenco do espetáculo de palhaços Jogando no Quintal.

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