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Publicado: Segunda-feira, 20 de agosto de 2007

O Impostor

Carolina foi criada na fazenda do Coronel Venâncio e da Dona Berta.
Naquele tempo era muito comum os casais abastados levarem uma menina pobre para sua casa para acabar de criar.
      
E a menina crescia lá, meio filha, meio empregada, chamando-os de padrinhos respeitando-os e obedecendo-lhes, pagando-lhes a acolhida com pequenos trabalhos domésticos.
       
Assim era a Carolina, uma boa menina, trabalhadeira e dedicada aos padrinhos e, principalmente a Suzana, filha do casal, que tinha a idade dela.
     
As duas meninas cresceram juntas e foram sempre muito amigas. Quando Suzana arranjou seu primeiro namorado, Leandro, Carolina foi a primeira, a saber.

Suzana estava feliz. Dizia que o rapaz era filho de um fazendeiro muito rico e que estava querendo se casar logo.

O pai, porém, foi tirar informações a respeito, descobriu que ele estava mentindo. Não era filho do fazendeiro e sim um empregado da fazenda, um pé rapado na opinião do Venâncio que ficou furioso e proibiu terminantemente o namoro.

Suzana e Leandro insistiram. Começaram a corresponder-se e Suzana não cansava de pedir à mãe que convencesse o pai a aceitá-lo.
 
Afinal ele havia mentido, porque sabia que o fato dele ser pobre ia ser empecilho, mas, poxa! Será que não podiam perdoar, esquecer isso? E se ele não era rico, que importância tinha isso, já que ela tinha mais do que o suficiente?

Tanto ela pediu que a mãe acabou ficando do seu lado e pedindo ao pai para aceitar o Leandro. Afinal, Suzana o amava e Berta não podia deixar de se emocionar com a paixão da filha.

Venâncio relutou muito. Adorava a Suzana e queria para ela o que julgava ser o melhor, isto é, um casamento rico.
- Por que isso? Ponderava a esposa. Dinheiro não é garantia de felicidade. Eles se amam e o amor, sim, pode fazê-los felizes.
- Bobagem! No final das contas o que vale mesmo é o dinheiro. O resto é bobagem.
E, além de tudo esse rapaz é mentiroso, sem caráter!
- Ele mentiu por amor! Isto chega até a ser bonito!
- Hummm! Vocês, mulheres estão sempre no mundo da lua. Ai de vocês se não fôssemos nós, os homens para aparar-lhes as quedas!

Mas Venâncio acabou cedendo, muito a contragosto, aos pedidos das duas mulheres tão queridas.
- Está bem! Pode dizer para ele vir conversar comigo.

Carolina ficou feliz pela amiga, mas não pode deixar de sentir uma picadinha de inveja, e decidiu, ela também ia arranjar um namorado.

Para ela ia ser fácil, não precisava ser rico nem ter grandes credenciais, pois, afinal ela não passava de uma criada.

Alguns dias depois desse incidente Carolina viajou
Todo ano, ela tirava uns dias para visitar os pais.
 
Era uma viagem longa e cansativa, mas que ela fazia com muita alegria.     
Levava o que tinha conseguido economizar do dinheiro que a Madrinha lhe dava para os alfinetes, como se dizia então, e a Madrinha sempre mandava também mais alguns presentes.

Assim a felicidade dos pais era redobrada. Reviam a filha e recebiam a ajuda de que sempre estavam precisando.

Foi quando regressava, no trem, onde viajaria por dois dias que Carolina conheceu um rapaz, o Luciano.

Ele sentou-se a seu lado e começaram a conversar.
Carolina ficou muito bem impressionada com ele e, ao que parecia, ele também estava gostando muito dela.

48 horas de viagem! Conversa, namoro, paixão...
Ele contou que estudava engenharia em São Paulo e sua família morava em Recife. Eram fazendeiros, tinham usinas de açúcar, exportavam, etc.

Carolina achou que ele devia ser muito rico. Nossa!
Deixou voar a imaginação:

Se desse tudo certo o que o Padrinho ia dizer? Ela a afilhada pobre casando-se com um engenheiro rico!

Mas, um temor a assaltou.
 
E a família dele? Com certeza iriam dar o contra se soubessem quem ela era.

Resolveu mentir. Mais tarde, quando ele estivesse apaixonado, ia perdoar-lhe com certeza, lutar por ela. Se contasse já ele podia desinteressar-se.
- Meus pais são fazendeiros. Temos algumas fazendas, mas ele não costuma falar de negócios comigo nem com a Mamãe. Ele diz sempre que as mulheres são ótimas para gastar dinheiro, mas não sabem como ganhá-lo. (palavras do seu Padrinho).

Luciano deu uma gargalhada.
- É isso ai! Dizem que o homem vitorioso é aquele que consegue ganhar mais dinheiro do que a mulher consegue gastar.

E assim foi a conversa por ai afora.
Ele afirmava a cada instante que se apaixonara por ela a primeira vista, que o namoro era pra valer e ela não tinha dúvida de que um milagre lhe acontecera.

Quando o comboio chegou a Fortaleza os dois se despediram. Ele disse que ia esperar pelo pai que viria apanhá-lo para fazerem o resto da viagem em seu automóvel (luxo da época accessível a bem poucos) e ela disse que ia à casa de uma amiga esperar pelo motorista do pai. Ele também a levaria de automóvel até a fazenda.

Mas Carolina ficou na estação ferroviária onde tomaria um outro trem que depois de algumas horas a deixaria numa estação próxima à entrada da fazenda.

Quando entrou no carro teve uma surpresa.
Quem é que estava ali?
Nada mais nada menos do que o Luciano!

Ia falar com ele, mas ele fingiu não conhecê-la. Dirigiu-se rapidamente ao ultimo banco e sentou-se com um jornal sobre o rosto como se estivesse lendo ou dormindo.

Carolina afundou
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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