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Publicado: Sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O Estupro de Uma Cidade

Crédito: Internet O Estupro de Uma Cidade
Enquanto não voltarmos aos valores básicos, continuaremos sendo violentados.

Não costumo comentar casos policiais. Há muitos comentadores das desgraças humanas hoje em dia. Sempre busco a esperança, mesmo nas situações mais grotescas. Porém, há exceções.

O caso de estupro e morte de uma menina de apenas seis anos, em Itu, é de causar choque. Não dá para ficar calado diante de tal ignomínia. Tomar conhecimento de um fato desses chega a doer, é como se todos nós fôssemos os estuprados.

Infelizmente, apesar dos protestos justos e verborrágicos da população em geral, será apenas mais um caso nas estatísticas. A tal criança se perderá entre os números que dão conta de 527 mil estupros ocorridos no Brasil a cada ano.

Caso o suspeito do crime seja mesmo condenado, já sabemos qual será seu destino. O código velado dos encarcerados não tolera a presença de estupradores e pedófilos entre eles. Provavelmente, de acordo com esta Lei de Talião dos nossos presídios, ele também será estuprado antes de ser morto. Não que eu apóie isto, mas é o que geralmente acontece.

Diante de Deus, caso não caia em si e se arrependa de verdade, o culpado de um crime hediondo desses contra uma criança inocente também está condenado para a eternidade. Jesus Cristo afirmou aos discípulos que, se alguém escandalizasse um de seus pequeninos, melhor seria que fosse jogado ao mar com uma pedra no pescoço (cf. Mt 18,6).

Nessas horas nosso foco deve ser a oração e o apoio aos familiares e amigos da vítima. Nenhuma palavra humana poderá consolar tamanha aflição em seus corações. Diante desses absurdos, nossa única esperança está no consolo divino. É hora de lamentar a tragédia e de rezar para que ela não aconteça com ninguém mais. É oportunidade para refletir o porquê dessas coisas no mundo.

Acontece que, em partes, estamos colhendo os frutos do que nossa sociedade tem plantado nas últimas décadas. Dizia Raul Seixas: "A gente passa a vida inteira travando a luta com os galhos, sem saber que é lá no tronco que está o coringa do baralho". Atualmente nós lutamos contra uma série de maldades e protestamos sobre todas elas. Porém, não nos damos conta da raiz desses problemas. Contentamos nossa consciência com a superficialidade das nossas opiniões, sem refletir profundamente e sem nos comprometer com seriedade.

A sociedade atual abomina o estupro e a pedofilia, mas incentiva a sexualidade infantil, a prostituição e tráfico de crianças, além de todas as formas de pornografia. Critica a geração de adolescentes e jovens desocupados e sem ideais, mas incentiva a desagregação familiar através do divórcio e da banalidade do matrimônio. Critica o egoísmo e a ganância, mas incentiva o consumismo desenfreado. Não se conforma com a corrupção, mas prega a busca do dinheiro a qualquer custo. Fala mal da classe política do nosso país, mas não faz um mea culpa por eleger para cargos eletivos tanta gente mal intencionada.

Hoje as pessoas nascem em famílias desestruturadas, sem perspectiva alguma de evolução. Aprendem que o importante é buscar o prazer carnal, sexualizar tudo. Aprendem que o dinheiro é mais importante que tudo, pois pode comprar tudo. Mas nem o sexo, nem o dinheiro, nem as aparências, compram a paz e o bem-estar de uma sociedade. Ao contrário: colocados no pedestal pela maioria, são a origem dos bárbaros crimes cometidos hoje em dia.

Coloquemos a mão na consciência. É preciso retomar algumas coisas básicas para a construção de uma sociedade realmente do bem. Educar nossas crianças e jovens com base em valores morais e religiosos (nem importa de qual religião). Apresentar-lhes a ética da vida, ensinar-lhes a valorizar a vida e cada pessoa, apontar-lhes o caminho das drogas como um atalho para o fracasso e a morte.

Enquanto não fizermos isso com seriedade, tanto em casa quanto em nossas escolas, continuaremos sendo roubados, violentados, sequestrados, estuprados e mortos. E isso tudo não porque Deus nos abandonou ou nos quer ver em meio a choros e ranger de dentes, mas sim porque não se colhe maçãs de bananeiras: se temos que lidar com tantas barbaridades hoje em dia é porque nós mesmos estamos permitindo que essas sementes do mal existam entre nós.

Que a força da fé nos ajude a superar tantas atrocidades. Que as nossas vítimas possam encontrar no outro mundo a paz que não tiveram neste.

Amém.

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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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