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Publicado: Segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O estranho no ninho

Era uma família como muitas outras.

O casal, Felício e Justina, com quatro filhos pequenos chegaram à cidade grande com pouco dinheiro, muita esperança e, sobretudo muita garra.

Ele marceneiro, ela costureira, começaram a trabalhar com afinco, fazendo o que sabiam fazer, cada vez melhor, conquistando pouco a pouco uma situação confortável.

Poderiam ser plenamente felizes, mas havia um senão. O filho mais moço, diferente dos irmãos, era muito problemático.

Enquanto os outros eram crianças dóceis, estudiosas, responsáveis que se tornaram adultos realizados e bem postos na vida, o Léo sempre foi briguento, desobediente, malcriado.

Não quis estudar e quando o pai levou-o para trabalhar com ele na marcenaria, além de não fazer nada, ainda o roubava.

Andava com as piores companhias e nada o movia, nem carinho, nem conselhos, nem repreensões, nem castigos.

Os pais não sabiam mais o que fazer. A esperança de que crescendo ele tomaria juízo foi frustrada, pois, à medida que crescia, maiores eram os seus problemas.

Até que um dia, envolvendo-se com meliantes, acabou participando de um assalto e foi preso.

Os pais ficaram desesperados. Podiam contratar um bom advogado, talvez conseguir a sua libertação, mas de que adiantava isso? Ele, certamente continuaria a ser o mesmo e nem queriam imaginar qual poderia ser seu fim.

Assim que lhe foi permitido receber uma visita a mãe foi vê-lo.

Justina ficou arrasada ao defrontar-se com o seu filho, tão querido, agora, um detento, convivendo com bandidos num lugar horrível.

Léo estava muito mudado. Magro, abatido, cabeça baixa, nem parecia o belo e arrogante rapaz que fora há tão pouco tempo atrás.

Onde aquele sorriso bonito, aquele jeitão despreocupado e irresponsável?

Não! Aquele homem acabrunhado, envergonhado, vencido, não podia ser o seu filhinho caçula que, para ela, parecia ser ainda uma criança!

Ele emocionou-se ao ver a mãe e falou:

- Mãe! Eu tenho uma pergunta que queria fazer há muito tempo e acho que chegou a hora.

- Fale, filho!

- É verdade que não sou seu filho legítimo?

Justina leva um choque e de repente aquela cena que decidira esquecer veio-lhe à mente.

Justina, Felício e os três filhos vinham a pé, até o ponto do ônibus que os traria para São Paulo, quando, de repente, viram a beira da estrada um bebê recém-nascido.

Ficaram atônitos, sem saber o que fazer.

Justina levantou-o aconchegou-o ao peito e os dois falaram ao mesmo tempo:

- Vamos ficar com ele!

Na sua simplicidade nem imaginaram que o que estavam fazendo era errado. Não sabiam que o correto seria encaminhá-lo ao juizado de menores e requerer a adoção pelos meios legais, mas, mesmo que soubessem, por certo, não o fariam, pois estava na hora do ônibus que não podiam perder, assim como não podiam correr o risco do juiz achar que eles não eram os pais ideais para o garoto.

Resolveram da maneira mais simples. Trouxeram-no para a capital e registraram como seu filho legítimo.

Nunca contaram isso para ninguém. Nem mesmo entre eles, nunca comentaram o ocorrido. Era assim como algo que tinham que esquecer. Passar uma borracha e apagar, se possível fosse.
Entretanto, nada se pode ocultar para sempre!

Agora o Léo, a sua frente, esperava a confirmação do que já sabia. Queria a verdade que ela não tinha o direito de esconder por mais tempo.

Como seria que ele descobriu?

- Por que essa pergunta, agora?

- Porque desconfio disso há muito tempo. Só queria me certificar.

- E o que o fez desconfiar disso?

- Uma vez, quando éramos ainda muito pequenos, o Cássio (o irmão mais velho) brigou comigo e me disse que eu não era seu irmão, que você me encontrou no lixo.

Mais tarde eu perguntei a ele se isso era verdade e ele me respondeu com evasivas. Disse que tinha uma vaga lembrança, que talvez fosse apenas um sonho.

Justina lembrou-se de que dissera para as crianças, naquele dia, que o bebê era dela, mas que a cegonha quando ia levá-lo, derrubou-o ali.

Eles eram muito pequenos e ingênuos, mas, é claro que não acreditaram por muito tempo nessa história, porem como nunca perguntaram nada, ela julgou que tivessem esquecido.

- Quando eu era criança, sempre sonhava que você me abandonava num lugar escuro e ia embora. Devia ser uma lembrança inconsciente da mulher que me abandonou, continuou o Léo. Grande parte da minha rebeldia era como que uma vingança. Eu achava que vocês não gostavam de mim e queria afrontá-los. Quando me castigavam eu me revoltava e fazia mais estripulias.

Foi preciso que eu viesse parar neste inferno para que pudesse pensar no que vinha fazendo e avaliar o quanto fui injusto com vocês. Afinal quem cria um filho ilegítimo tem muito mais mérito.

- Léo! Você é meu filho legítimo sim.  Deus, às vezes, usa métodos pouco convencionais para colocar um filho nos braços de uma mãe, mas ele nunca se engana. Nunca deixa o filho com a mãe errada. A mulher que o trouxe ao Mundo não era sua verdadeira mãe, por isso o abandonou. Nós nunca o deixaríamos ali a beira da estrada porque nos nossos corações já éramos seus verdadeiros pais. 

- Quando eu conseguir sair daqui vou ser outro homem. Vou trabalhar com o Papai, vou voltar a estudar. Vocês nunca mais terão aborrecimentos comigo.

- Deus permita que seja assim mesmo!

Afinal, “como diz a sabedoria popular,” Há males que vêm pra bem!”

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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