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Publicado: Terça-feira, 30 de março de 2010

O dia da verdade

Quando se aproximava o Dia dos Pais Emília ficava muito preocupada.

Na escola infantil onde dava aulas, os alunos preparavam-se durante a semana toda para a festa do Papai. Não falavam em outra coisa senão no ensaio da peça que apresentariam, no presente, na mensagem, etc.

Alguns pais, por vários motivos, não podiam comparecer e Emília tinha muita pena dessas crianças que não participavam da festa.

Mas o que mais sensibilizava Emília era a Rosmary que ninguém sabia quem era o seu pai, pois o seu nome não constava em seus documentos.

Rosana, a mãe, também era professora e trabalhava no mesmo colégio.

Era uma moça muito retraída. A única amiga mais chegada que tinha era a Emília, mas nem esta nem ninguém na cidade sabiam quem era o pai da Rosmary. Diziam as más línguas que nem Rosana sabia...

A primeira vez que Rosmary perguntou pelo pai, Rosana disse simplesmente que nem todos têm pai. Ela não tinha.

É claro que muito cedo Rosmary descobriu que não era assim e voltou a questionar a mãe que, muito zangada, disse a ela que nunca mais falasse sobre isso.

Emilia gostava muito da Rosmary e tornou-se logo sua confidente. Não tardou para que ela lhe falasse sobre as dúvidas que tinha a respeito do seu pai e da vontade de saber quem ele era.
Emília prometeu que ia pesquisar e que por certo descobriria isso.

Na verdade, não sabia como ia fazer, pois a única pessoa que podia esclarecê-la era a Rosana, mas esta era um túmulo quando se tratava desse assunto. Prometeu a si mesma e confidenciou ao marido que não sossegaria enquanto não descobrisse tudo.

- Eu acho que você não devia se meter nisso. A Rosana tem o direito de guardar seus segredos.

- Mas a Rosmary também tem direito de saber quem é o seu pai

- Mas não cabe a você descobrir isso.

- Hiiih! Do jeito que fala dá até para desconfiar que seja você o “artista”.

- Eu????!!!!

- Brincadeira, é claro!

Quando Rosmary, já mocinha, começou a interessar-se por rapazes, Rosana advertiu-a dizendo que os homens não prestavam e que era melhor que ela se mantivesse a distância deles.
Confusa, a menina foi conversar com Emília que sensatamente a orientou para uma convivência saudável com os jovens de sua idade.

Quando Rosmary começou a namorar o Bruno, a principio escondeu de Rosana, pois esta sempre dava o contra nas suas paqueras.

Só que agora não era uma simples paquera. Era amor de verdade e o Bruno queria oficializar o noivado. Marcar o casamento para o ano seguinte.

Rosmary resolveu falar com a mãe.

Já esperava que ela voltasse àquela conhecida ladainha, que os homens não prestam, que casamento era uma droga, que era melhor ficar solteira, etc., mas não esperava uma reação tão violenta.

Desfigurada, tremendo, ela disse à filha que ela não podia casar com o Bruno que ele não servia para ela.

Rosmary insistiu. Não podia entender porque a mãe achava que o Bruno não servia para ela. Ele era um ótimo rapaz, bem colocado, de boa família. Ninguém tinha nada contra ele. Só a Rosana
Rosana conversou com Emília. Pediu à amiga que fizesse a filha desistir daquele namoro. Ela sempre a ouvia.

- Por quê? O Bruno é tão bonzinho.

- Mas a Rosmary é muito nova. Pra que casar tão cedo se sabemos que casamento só traz sofrimento?

- Não é assim também. O casamento pode ser feliz, trazer realizações, filhos, alegrias.

Rosana viu que nunca ia conseguir a ajuda da amiga. Era evidente que esta estava do lado da Rosmary.

Não tinha outra alternativa senão contar a verdade à filha:
- Você não pode casar-se com ele porque ele é seu irmão.

- Meu irmão?! Então o Regis é meu pai?!

- É. Mas espero que guarde este segredo como sempre guardei. Termine o namoro, mas, nem mesmo ao Bruno conte isso. Dê outra desculpa qualquer.

Rosmary não podia acreditar no que estava acontecendo.

Procurara tanto pelo pai e agora que o encontrara ele lhe parecia de todo indiferente, não lhe causava qualquer emoção.

Nada daqueles seus sonhos loucos de ele aparecer um dia, um homem maravilhoso que ela saberia que era seu pai antes mesmo que ele o dissesse, dando uma explicação plausível para o seu sumiço (não conseguia imaginar qual seria essa explicação), voltando para a sua casa, assumindo-lhe a paternidade, transformando a sua vida e a da sua mãe.

Nada disso! E além de tudo ele era o pai do Bruno.

Sentiu sangrar o coração ao pensar no Bruno e no namoro que tinha que acabar.
O que diria a ele?

A verdade! Chega de mentiras! Sofreriam juntos e odiariam juntos aqueles dois que com sua irresponsabilidade haviam roubado a sua chance de ser feliz.

Mas quando ela, muito sem jeito, escolhendo as palavras, contou tudo ao Bruno, ele, no primeiro momento ficou pasmo, mas logo retomou seu ar alegre e brincalhão:
- Não há impedimento nenhum, minha querida! Eu não sou filho legítimo deles. Fui adotado. Sempre soube, mas nunca contei a ninguém porque eles me pediram para guardar segredo.

-!

Tantas emoções juntas! Será que estava sonhando?

Rosmary não sabia se ria ou se chorava e acabou fazendo as duas coisas.
- “Nada sobre a Terra ficará oculto para sempre!”

Quem foi mesmo que disse isso?

- Sei lá! Só sei que hoje deve ser o Dia das Surpresas.

- Ou o Dia da Verdade!

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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