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Publicado: Segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O catador de sucata

Juliano foi uma criança e adolescente muito infeliz e problemático. Filho de pais separados, tendo cada um deles outra família, tinha duas casas, mas não tinha um lar.

Se ficava com a mãe, era maltratado pelo padrasto, se ia para a casa do pai brigava com a madrasta. Parecia-lhe que ninguém gostava dele e em contrapartida ele odiava a todos.

Criou-se, então, um círculo vicioso. Quanto mais ele aprontava, mais era repreendido, mais ficava com raiva e mais travessuras fazia.

Tinha dezoito anos quando saiu de casa depois de uma grande briga com a madrasta.

O pai ameaçou:

- Se você sair daqui, me esqueça! Não venha mais me pedir nada nem que esteja morrendo de fome!

Juliano sacudiu os ombros e lançou seu último desabafo:

- Eu nunca tive um Pai. Não estou perdendo nada!

E foi-se.

Ele tinha um emprego. Trabalhava em uma loja, mas ganhava pouco. Foi dividir um quarto com um amigo, vida bem pouco confortável, mas estava contente com a liberdade. E foi então que começou a usar drogas.

Seu rendimento no trabalho começou a diminuir e o patrão depois de adverti-lo algumas vezes, acabou por dispensá-lo. Não conseguiu outro trabalho. Não pode mais pagar o quarto. Ficou na rua.

Pensou:
“Mais um morador de rua!”

Depois de vagar o dia inteiro, cansado, faminto, ele chegou a um bairro pobre, sentou-se na calçada e acendeu seu último cigarro de maconha. Não saberia dizer quanto tempo ficou ali, meio dormindo, meio acordado.

As pessoas passavam por ele sem deter-se. Era simplesmente mais um drogado jogado na rua. Havia tantos!

Algumas pessoas se afastavam, passavam ao longe como se a miséria humana fosse contagiosa.

Despertou de seu torpor com uma voz que lhe chamava:

- Ei, rapaz! Que aconteceu com você?

Quem lhe falava era um homem muito simples, mal vestido, aparência paupérrima. Mas havia bondade em sua voz.

Juliano sentiu-se, de repente, aceito, protegido.

- E daí? Não quer me contar o que lhe aconteceu?

Juliano começou a falar. Em poucas palavras resumiu toda a sua vida, toda sua amargura, toda sua desesperança.

- Olha, menino! Meu nome é Benedito. Meu barraco fica logo ali. É pequeno, mas dá para dois. Vamos pra lá. Amanhã a gente pensa no que fazer. Juliano acompanhou o Benedito.

Depois de repartir com ele o seu parco jantar, foi a vez do Benedito falar. Contou que viera do sertão há algum tempo iludido com as maravilhas da cidade grande, mas sem profissão, analfabeto, a única coisa que conseguiu foi um carrinho para catar sucata.

- Se você quiser arranjo um carrinho pra você também. Não dá pra ganhar muito, mas dá pra viver. E o Juliano tornou-se um catador de sucata.

Todo os dias saia de madrugada pelas ruas da cidade puxando o carrinho e catando papel, garrafas, plásticos... À noite, fumava sua droga, pouca coisa, pois não tinha dinheiro para comprar mais, e conversava com o Benedito.

O traficante lhe ofereceu uma boa comissão para ele vender a erva, mas ele, apesar de tentado, ficou com medo. Benedito não o recriminava, mas deu-lhe um conselho:

- Olha, meu filho, nunca parta para os crimes. Nunca roube nem faça tráfico porque essas coisas cedo ou tarde dão cadeia.

O vício você pode deixar quando quiser, mas o crime marca uma pessoa para o resto da vida. Ele, que nunca ouvira conselhos de ninguém, acatou as palavras do Benedito como verdades insofismáveis.

Todos os dias, Juliano separava um jornal da cidade que levava para ler. E foi num desses jornais que ele viu a notícia de uma festa de formatura. Eram os jovens de sua idade. Muitos deles tinham sido seus colegas e agora eram doutores enquanto ele vivia naquela miséria. Ficou acabrunhado e, como sempre, desabafou com o Benedito:

- Eu joguei fora a minha vida!

- Não diga isso! Você ainda é muito moço, pode mudar, se quiser.

- Como? Eu não vivo sem a droga e com meu vício não vou conseguir fazer nada melhor na vida.

- Você pode deixar o vício, se quiser.

- É o que mais quero, mas não consigo.

- Você precisa de ajuda. Por que não procura uma dessas instituições de ajuda a viciados? .

Dois dias depois Juliano adentrava uma clínica onde muitos jovens se recuperavam. O alojamento dos não pagantes, muito simples, mas confortável e limpo, pareceu-lhe um hotel cinco estrelas. Havia cama, lençóis e cobertor, luxos que há muito tempo ele não tinha.

Mas, o melhor de tudo foi a surpresa:

- Juliano! É você mesmo?

- Maurício!

Maurício era filho de sua madrasta.

Os dois tinham sido muito amigos em criança. Quantas estripulias fizeram juntos! Quantas surras levaram! E, agora, estavam ali pelo mesmo motivo. Envolvimento com drogas. Maurício já estava quase recuperado. Em breve poderia sair.

- Seu pai prometeu-me um comércio quando eu me recuperasse. Estou pensando em uma lanchonete para começar, depois um restaurante. Você podia trabalhar comigo. Podíamos ser sócios.

- Não sei, não... Quando saí de casa ele disse...

- Que nada! É tudo bravata! Ele morre de saudades de você. Vai ficar feliz quando souber da nossa sociedade. É capaz até de aumentar o capital...

E os dois quase-irmãos passaram parte da noite conversando, fazendo arrojados planos para o futuro. Não tinham dúvida de que o caminho seria longo e espinhoso, mas estavam dispostos a palmilhá-lo.

E Juliano, pensando no futuro ainda distante disse:

- E quando estivermos estabelecidos, precisando de empregados, eu quero contratar um amigo meu. Ele é muito pobre, analfabeto, mas é a pessoa mais bondosa, honesta e sábia que encontrei em toda minha vida.

Se não fosse ele, não sei o que teria sido de mim!

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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