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Publicado: Segunda-feira, 23 de julho de 2007

O casamento da Belinha

Dona Esmeralda conversa com a filha de quinze anos:
Belinha, você foi pedida em casamento.
O coraçãozinho da Belinha saltou no peito e seus olhos brilharam alegremente.
A mãe continuou:
O coronel Viriato pediu você para o filho, Bernardo.
- Ah, Mamãe! Eu não quero me casar com o Bernardo! Ele é muito velho e muito feio!
- Que é isso, menina? Ele tem apenas trinta anos. Não é velho. E é muito bem apessoado. Não tem nada de feio. É um ótimo rapaz, bem educado, de boa família e muito rico. Seu pai já deu a resposta. Você vai casar-se com ele, sim.
-Ah! Mamãe! Eu pensei que fosse o Dr Simões que me tivesse pedido para o Roberto...
O Dr Simões era o veterinário que visitava regularmente a fazenda e dava assistência ao rebanho.
Ultimamente, o filho recém – formado que estava trabalhando com ele acompanhava-o nas visitas e, ele e Aninha trocavam olhares fortuitos, o máximo que era permitido aos jovens, naquele tempo.
- O que? Você andou flertando com o Roberto?! Olhe a compostura!
- Não. Mamãe! Claro que não! Eu só pensei...
- Agora você é uma moça comprometida e não pode pensar em outros rapazes.
- Mas, Mamãe...
- Chega Maria Isabel! Não seja malcriada!
E começou o período de noivado.
Bernardo vinha freqüentemente à fazenda.
Cumprimentava cerimoniosamente a Belinha, chamando-a de Dona Maria Isabel e oferecia-lhe valiosos presentes que eram mais admirados pela mãe do que por ela mesma. Depois ia para a sala de visitas com o pai dela e ficavam horas conversando sobre política e negócios.
Enquanto isso, Belinha e a mãe ocupavam-se com o enxoval.
Alvos lençóis e toalhas de linho finíssimo, todo enfeitados de rechilieu, rococó e rendas de bilro. Bordados em ponto cruz, colchas de crochê, tudo marcado com delicado monograma, bordado pelas duas, auxiliadas por algumas escravas mais habilidosas.
Precisavam caprichar muito porque uma das coisas que as sogras mais reparavam era na beleza do enxoval e a última coisa que Dona Esmeralda queria era que a Dona Donata, mãe do Bernardo achasse que ela e a filha não eram suficientemente prendadas.
Enquanto trabalhavam a mãe aproveitava para dar-lhe conselhos: Como administrar o lar, tratar os escravos e, sobretudo, agradar o marido.
E chegou o dia do casamento.
A capela da Fazenda foi ricamente enfeitada, coberta de flores.
As portas da casa grande abriram-se para receber centenas de convidados que se espalharam, ainda, pelo pátio e pelos jardins. Muita fartura e muito fausto!
A família do noivo era muito mais rica do que a da noiva, mas o coronel Siqueira, pai dela, não queria que isso fosse evidenciado.
Belinha estava linda no seu suntuoso vestido de noiva e fez as honras da festa, mas não estava feliz.
Quando chegou a hora de despedir-se, choramingou mais um pouco para a mãe:
- Mãe! Eu não quero ir embora...
- Mas é preciso que vá, filha. Vocês virão passar todos os domingos conosco. Não vai sentir muito a nossa falta. Tudo vai ser muito bom, você vai ver.
E lá se foram os dois.
Os pais ficaram apreensivos. Tinham forçado a filha a um casamento que ela não queria e, muito embora acreditassem ter feito o melhor para ela, (como é que haviam de recusar o melhor partido da região?), estavam pesarosos vendo-a sofrer.
Aquela semana foi a mais longa de suas vidas. Aguardaram com a maior ansiedade o domingo, para revê-la e constatar se estava tudo bem com ela.
Esperaram desde as primeiras horas da manhã, mas eles só chegaram depois do meio dia, se desculpando por estarem atrasados. Tinham perdido a hora...
Não foi preciso ser muito perspicaz para perceber que estavam transbordando de felicidade, olhos brilhantes, risonhos, animados, esbanjando alegria.
Naquele tempo, os casais eram muito discretos. Não ficava bem qualquer efusão em público e eles se comportaram convenientemente, mas os pais, atentos, flagraram várias trocas de olhares significativos entre os dois.
À tarde, quando se dispunham a ir embora, um medonho temporal ameaçou desabar.
O Coronel disse:
- É melhor vocês deixarem para ir amanhã. Vão pegar chuva feia no caminho.
Antes que o Bernardo pudesse responder a Belinha exclamou:
- Não, Papai! Nós precisamos ir.
E, mandando às favas a compostura, agarrou a mão do marido e arrastou-o pela chuva que já começava a cair, até a carruagem que os esperava.
Bernardo acompanhou-a docilmente rindo, divertido.
Os pais ficaram no terraço vendo-os desaparecer na primeira curva, debaixo de raios e trovoadas e, então o Coronel voltou-se para a esposa e disse, entre severo e divertido:
- Se o Bernardo não se cuidar, a Belinha é capaz de pôr-lhe um cabresto!
Dona Esmeralda limitou-se a sorrir, mas disse lá com seus botões:
- Tomara que ponha mesmo!
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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