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Publicado: Segunda-feira, 16 de março de 2009

O Boato

Era uma pacata cidadezinha do interior onde todos se conheciam e as amizades e inimizades passavam de geração a geração.  As mesmas ruas, as mesmas casas comerciais e as mesmas moradias passaram décadas e décadas com mínimas transformações.
 
A pracinha da Igreja e a própria Igreja, velha, precisavam de consertos e, o Padre Bento repetia a cada sermão que era preciso colaborar com a reforma da Igreja, mas, nada! A população era, ou muito pobre, ou muito acomodada. Foi assim até que um dia, um complexo industrial resolveu instalar-se no local. Foi uma festa!
 
As fábricas precisando de centenas de funcionários começaram a contratar. Por toda parte via-se o “Precisa-se” e, a esperança de um bom emprego, de uma vida nova, trouxe até a cidade milhares de candidatos às vagas.
 
Muita gente foi contratada, a população da cidade dobrou em pouco tempo e, conseqüentemente, aumentaram as moradias, aqueceu-se o comércio e a cidade mudou de aspecto.
 
O Padre Bento, felicíssimo, conseguiu o dinheiro necessário para a reforma da Igreja e um industrial doou um carrilhão que veio substituir o velho sino de badalo. E, foi então que surgiu o “boato”.
 
- Comadre imagine só o que me contaram! Disseram que há, na cidade, uma quadrilha de ladrões de crianças infiltrada entre esse povo que vem de fora procurar emprego.
- Credo! Mas, para que será que querem as crianças?
- Diz que é para mandar para os Estados Unidos para uma clínica de transplantes, para matar e aproveitar os órgãos.
- Isso é incrível! Mas, como souberam disso?
- Quem me contou foi a Júlia que disse que a vizinha ouviu no rádio. Disse que já roubaram oito crianças.
 
E, por ai afora, cada dia ouvia-se um novo boato:
- Foi no Jardim Brasil. Disseram que levaram quatro crianças de lá.
- Hoje foi no Parque Santa Rosa. Duas crianças!
- No Bairro da Mexerica entraram em uma casa e levaram o bebê.
 
Ninguém acreditava muito, mas ficava uma leve preocupação. Afinal, a vida da cidade andava tumultuada com esse mundo de gente de fora, que ninguém conhecia. Da incredulidade inicial, passou-se rapidamente à preocupação e, desta, ao medo.
 
Em pouco tempo, havia uma verdadeira paranóia generalizada. Os portões não ficavam mais encostados, como outrora, com os vizinhos entrando e saindo sem bater. Passaram a ser fechados com cadeados e os muros foram levantados. As mães começaram a sair com as crianças segurando firme na mão, coisa a que elas não estavam acostumadas.
 
Até então, a criançada andava livre por toda parte. Jogava bola no meio da rua correndo para a calçada quando se aproximava um carro, sempre cauteloso, pois ali estavam seus filhos ou os filhos de seus amigos.
 
Agora, não podiam mais fazer isso. Com tanta gente estranha, sabe-se lá! E com esse boato, então, todo cuidado era pouco!
 
E o boato alastrava-se, como erva daninha que ninguém sabe como nasceu, mas que não se pode contestar a existência.
 
As mães tremiam cada vez que cruzavam com um desconhecido e nunca tantos lhes pareceram tão mal-encarados.
 
As crianças deixavam-se contagiar pela insegurança das mães e tornavam-se arredias e medrosas. Não queriam mais brincar nem sair de casa. Só queriam ficar agarradas as mães como se só elas pudessem afastá-las do perigo.
 
A frequência das crianças na Igreja e nas aulas de catecismo diminuiu muito. O Padre Bento, como toda pessoa sensata, sabia que o boato não tinha fundamento, mas, quem podia convencer uma Mãe disso?
 
E foi então, que ele teve uma idéia. No sermão de domingo, a Igreja cheia, as mães segurando os filhos, como já se tornara um hábito, ele fez um comovente apelo: Pediu à pessoa que tinha inventado aquela mentira que se retratasse. Disse que a sua responsabilidade era muito grande, que aquilo era um pecado mortal, etc..
 
Foi eloquente e convincente, pois, terminada a Missa o sacristão procurou por ele e confessou:
- Fui eu Seu Padre! Inventei a mentira e Graças a Deus ela pegou bem!
- Como pode dizer isso? Você cometeu um erro muito grande.
- É que, lá na minha Terra dizem que quando se coloca um sino novo em uma Igreja a gente deve inventar uma mentira e que quanto mais ela se espalhar, melhor fica o som do sino. Deu certo! O carrilhão tem um som muito bonito. Muito melhor do que o do outro sino! Foi o boato! Pode crer!
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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