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Publicado: Segunda-feira, 9 de junho de 2008

O Assalto

Há mais de vinte anos Mateus era taxista.
Fora seu sonho de garoto pobre, numa época em que o automóvel era luxo de ricos, ter um táxi, ou como se dizia então, um carro de praça.
Sonho realizado, Mateus se deu muito bem com a profissão. Divertia-se com as conversas entaboladas com os clientes ou ouvidas sem querer... Querendo...
Tinha uma coleção inusitada: colecionava coisas deixadas pelos passageiros em seu carro.
É claro que ele, honestamente, sempre dava uma olhadinha quando o cliente descia e avisava se via que ele estava deixando algo, mas, mesmo assim, todos os dias sobrava alguma coisa em cima do banco traseiro ou no piso. Coisas, as mais variadas e incríveis: guarda chuvas, bolsas, lenços, sapatos, brinquedos, livros, agasalhos, etc, etc, etc. objetos estes que ele levava para casa e guardava, muito bem etiquetados com todas as informações que julgava serem importantes.
O acervo aumentava dia a dia para desespero da mulher que via, cada vez mais, todos os espaços da casa ocupados pela incrível coleção.
 - Por que você não dá um fim nisso? Não vende, doa ou joga fora?
 - Não posso fazer isso. Estas coisas não me pertencem. Se um dia o dono procurar, tenho que devolver.
Mas é óbvio que nunca ninguém apareceu para procurar nada. Ninguém consegue localizar um táxi, algumas horas, dias ou meses depois de deixá-lo, mesmo que queira.
Em todo aquele tempo de corridas, Mateus nunca se envolvera em acidentes nem sofrera assaltos. Ele dizia que era graças ao adesivo de São Cristovão que mantinha no painel, mas, na realidade, eram suas orações e sua fé que realmente o vinham preservando dos perigos.
Mas, numa noite chuvosa, estava parado no ponto quando um homem todo encolhido embaixo de um guarda-chuva, aproximou-se.
Solícito, ele apressou-se em abrir a porta para o freguês e deu partida no carro seguindo rumo ao bairro distante por ele indicado.
De repente o homem perguntou:
- Quanto você tem em caixa?
Pergunta estranha! Mateus respondeu já ressabiado:
- Uns trezentos reais... Por quê?
- Muito pouco! Vai arranjar mais.
Ele sente na nuca o contato gelado de um cano de revolver e fica apavorado:
- Não tenho como...
Não tente chamar a policia que você morre. Obedeça que é melhor para você.
- Juro que não tenho mais nada! Só se você quiser ficar com o carro...
- Não quero seu carro! Tenho planos melhores para você. Vá andando!
 Mateus estava apavorado. Suas mãos crispadas seguravam o volante com força exagerada e seus pés comandavam os pedais automaticamente. Só a tarimba de tantos anos lhe permitiu atravessar com segurança o trânsito intenso da cidade e alcançar o bairro periférico onde o assaltante lhe ordenou que parasse em frente a um bar.
Por que ali? No meio de tanta gente? Que será que ele vai fazer?
O passageiro desceu e ordenou ao motorista que descesse também.
Os dois se encaram e Mateus tem uma surpresa:
- Juliano!
O outro dá uma gargalhada:
- Custou a me reconhecer, heim! Quis fazer uma brincadeira com você, mas não pretendia ir tão longe. Pensei que fosse mais esperto! Que percebesse logo! Desculpe o mau jeito!
Mateus e Juliano foram muito amigos na juventude. Quantas aprontaram juntos! Depois perderam o contato e muitos anos se passaram. As pessoas mudam e Mateus não pudera vê-lo muito bem quanto tomara o táxi.
Ao alívio, seguiu-se a raiva natural. Vontade de esbofeteá-lo!
- Que brincadeira infame! Com revólver e tudo!
- Revólver, nada! Foi a ponteira do guarda-chuva que encostei em seu pescoço.
- Mateus acabou rindo também e a história terminou na mesa do bar diante de um copo de chope com os dois amigos passando a limpo trinta anos de suas vidas.
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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