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Publicado: Sábado, 7 de novembro de 2009

Nivelando por baixo

Dia desses um professor conversava comigo a respeito de uma promoção organizada pela Prefeitura de uma certa cidade. Com o objetivo de conscientizar a população em questões ambientais, especificamente quanto à destinação das garrafas plásticas para a reciclagem, o governo municipal resolveu fazer uma grande promoção.

A ideia foi muito boa: utilizar as garrafas plásticas para fabricar enfeites natalinos, para enfeitar toda a cidade no fim de ano. Para tanto, vários veículos da Prefeitura fizeram uma verdadeira carreata da reciclagem, passando durante vários fins de semana nos bairros do município.

Com grande quantidade de garrafas arrecadadas, fez-se um convite para todos os que desejassem participar de oficinas artesanais, para aprender a transformar o plástico em guirlandas, papai-noéis, etc.

Nas escolas municipais os diretores, coordenadores e professores foram orientados no sentido de estimular a participação dos alunos na campanha, solicitando que levassem para a escola o tanto de garrafas plásticas que conseguissem.

Algo precisava ser feito para estimular a criançada a participar. Então ficou decidido assim: a cada 20 garrafas arrecadadas, o aluno ganharia um cupom. E os que tivessem mais cupons em cada sala de aula levariam como brinde um dia de folga.

Meu colega professor recusou-se a estimular a participação de seus alunos. Argumentou: “Como posso estimular meus alunos a participarem de uma promoção que dá como ‘brinde’ o direito à ausência da escola? É um contra-senso!”. O professor não deixa de ter razão. Em que tempos estamos, nos quais o maior prêmio para o aluno é dizer que ele não precisa vir em determinado dia para as aulas?

Estamos em outros tempos, dizem os professores mais antigos. Hoje parece que há uma falta de estímulo generalizada, tanto para alunos quanto para professores. As queixas são várias: material didático aquém do necessário, baixos salários, falta de condições básicas para lecionar, etc.

Alguns professores já não acreditam (ou não têm consciência) em seu papel de formadores, não apenas do intelecto mas sobretudo da postura ética e moral de cada criança ou jovem, que serão os futuros cidadãos do nosso país.

Por sua vez, os alunos enxergam a escola como uma obrigação. Para piorar, não se sentem estimulados a dedicar-se nas disciplinas. O sistema vigente não prioriza o real aprendizado, quanto os alunos conseguiram aprender durante o ano letivo. 

Assim, acabamos com uma escola na qual o aluno vai para “passar o ano” e não “passar de ano”. Mesmo os que não estão aptos são aprovados ao período seguinte e com isso o nível educacional vai sendo nivelado por baixo.

O resultado são crianças deixando o Ensino Básico com uma alfabetização sofrível. Alunos do Ensino Fundamental incapazes de interpretar um texto ou fazer cálculos fracionários. Jovens do Ensino Médio sem perspectivas quanto ao ingresso em uma faculdade pública, pois se sabem incapazes de concorrer às vagas. Sem falar nos universitários que se tornam profissionais sem conhecer em profundidade algumas das matérias mais básicas do currículo escolar.

Triste é perceber que, para o governo, o que interessa é a quantidade de alunos “aprovados” a cada ano e não a qualidade do ensino que receberam. Um erro que pode custar caro às futuras gerações e que levará décadas para ser corrigido.

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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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