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Publicado: Domingo, 27 de janeiro de 2019

NÃO, SEU PET NÃO VAI PRO CÉU!

Crédito: Internet NÃO, SEU PET NÃO VAI PRO CÉU!
Seu pet não vai pro Céu, mas a lembrança dele ficará para sempre no seu coração.

Na quase infinitude de conteúdos das redes sociais, há a foto de uma mulher com seu gato de estimação. Na camiseta dela, consta a frase: “Nós nos livramos das crianças. O gato era alérgico”. A obviedade da ironia ninguém nega. Porém, em toda piada sempre existe um fundo de verdade e na referida frase manifesta-se uma das confusões que mais embaralham a mente das pessoas dos nossos tempos: a idolatria aos animais. Essa forma de paganismo moderno afeta até mesmo os católicos desavisados, que não são poucos.

Particularmente, creio que não há nada tão legal do que ter um animal de estimação. É algo que faz parte da vida do ser humano desde sempre. Pesquisas arqueológicas comprovam que, lá na pré-história, o homem aprendeu a domesticar animais, principalmente os lobos e os cães que passavam a ajudar na defesa do grupo e, depois, da propriedade, do rebanho, etc. Ter um animalzinho por perto ajuda até mesmo em relação a algumas patologias, notadamente a depressão. Acontece que o mundo anda de cabeça para baixo e a inversão de valores também vem afetando a relação dos seres humanos com os chamados pets.

O Catecismo da Igreja Católica (CIC), que deveria ser mais conhecido pelos próprios católicos, toca no assunto em quatro breves e esclarecedores parágrafos (2415 a 2418). Em suma, reconhece que os animais podem e devem estar a serviço da humanidade, seja como alimento, cobaias para experimentos e outros fins. Mas ressalta que os animais, enquanto criaturas de Deus, também têm sua própria dignidade. A doutrina, porém, é clara no seguinte:

“É contrário à dignidade humana fazer os animais sofrerem inutilmente e desperdiçar suas vidas. É igualmente indigno gastar com eles o que deveria prioritariamente aliviar a miséria dos seres humanos. Pode-se amar os animais, porém não se deve orientar para eles o afeto devido exclusivamente às pessoas” (parágrafo 2418).

Humanos que tratam seus pets como “filhos”, enchendo-os de mimos como roupinhas e festinhas de aniversário são, portanto, vítimas dessa confusão modernosa. Assim como casais que dispensam a concepção e a criação de filhos “porque dá muito trabalho”, mas “adotam” três ou quatro pets. Aquele seu conhecido que diz gostar mais dos animais do que dos seres humanos, também. E aquela sua colega que move céus e terras para cuidar de cãezinhos abandonados, mas não move um palito em favor de um ser humano enfermo ou de uma criança passando fome, idem. Essa é a idolatria: o ser humano, feito à imagem e semelhança de Deus, é rebaixado de condição, sendo menos considerado que um cão, um gato, um rato, um golfinho, etc.

Outra confusão em relação aos bichinhos diz respeito ao seu destino após a morte. À pergunta “Meu pet vai pro céu quando morrer?” a resposta breve e real é: “NÃO”. Como dizem, a verdade dói. Muita gente arranca os cabelos e se desespera, qual personagem de novela mexicana, diante desse fato que, com um pouco de filosofia e outro tanto de teologia, pode e deve ser completamente entendido por qualquer pessoa de boa vontade.

São Tomás de Aquino aborda esse tema na Suma Teológica (Volume III, parte 2, Coleção BAC, I Q. 75 a 86). Ele afirma, basicamente, que os animais não possuem uma alma racional e que, sendo a alma a forma metafísica do ser humano, dizer que os animais têm “alma” é praticamente afirmar que não existem diferenças entre nós e os pets.

A alma humana é capaz de entender, querer e sentir. Portanto, possui a razão e o livre-arbítrio. Os animais, porém, têm uma “alma animal” que não é racional e nem imortal. Eles não têm livre-arbítrio, são dominados por seus instintos. E tampouco têm razão, agindo praticamente por reflexos. Embora tenham uma alma “sensível”, capaz de sentir dor, fome, frio ou prazer, somente isso não basta para igualar sua condição ontológica à dos seres humanos.

Por essas e outras, na mais pura e simples lógica, o destino de homens e animais é completamente diferente. Nós, que temos uma alma imortal, continuaremos existindo na eternidade (seja no céu, no purgatório ou no inferno). Um animal, não. Morreu aqui, acabou. E nisso também há muita gente dita “espiritualizada” dando cabeçada em contradições. Como aquele seu amigo que é ateu, mas fala de um “céu” para o cachorrinho falecido. Ou aquela sua amiga que não acredita em vida após a morte, mas concebe na imaginação um “paraíso” só para os felinos. Estranha e hipocritamente, essa mesma turma não manifesta a mesma preocupação por bichinhos menos fofos. Cadê a compaixão por baratinhas, lesminhas e escorpiõezinhos?

Alguns anos atrás, respondendo pergunta feita por uma criança de oito anos de idade, o Papa Francisco deu a entender que todas as criaturas têm lugar na eternidade. Como sempre, o Santo Padre foi mal interpretado. A mídia sensacionalista distorce, quando interessa, tudo quanto sai da boca do Papa. Longe de manifestar uma afirmação academicamente teológica, ficou claro que a intenção de Francisco foi consolar a criança, cujo cachorrinho havia morrido. Ou seja, foram palavras de consolo para uma mente infantil e nada mais. É triste, mas há muito adultos com mente e fé infantilizadas, com má vontade para diferenciar lé de cré.

Se você tem um animal de estimação, cuide muito bem dele e sem exageros. Não deixe de agradecer a Deus, o Criador de todas as coisas, pela grata oportunidade de ter em sua companhia um bichinho para animar o seu dia. Aproveite ao máximo as brincadeiras e os passeios com ele. E, quando ele morrer, é claro que pode e deve chorar de saudade, mas sem idolatrias. Não, o seu pet não vai pro Céu. Mas isso não significa que a lembrança dele não ficará para sempre no seu coração.

Amém.

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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é sacerdote católico apostólico romano e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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