Colunistas

Publicado: Domingo, 29 de janeiro de 2012

Não concordo

Não concordo
Será? Por quê? Como? Onde? Quando? Para quem?

Há mentes inquietas.  Independentemente do tempo e do espaço são mentes que intencionalmente nos incomodam. A intenção? Marilena Chauí responde: “(...) povocar em cada um de nós a decisão de não aceitar como naturais, óbvias e evidentes as coisas, as ideias, os fatos, as situações, os valores, os comportamentos de nossa existência cotidiana”. 

Exemplos de mentes assim?  São muitos. A própria Marilena Chauí e Paulo Freire são alguns. Mas não são os únicos. Fernando Pessoa, Mario de Sá Carneiro, Albert Einstein e Steve Jobs são outros, entre tantos outros. E aqui, antes que alguns torçam o nariz, vale um comentário: Steve Jobs tinha, sim, um jeito difícil de ser e conviver, porém a leitura da sua biografia me fez compreender seu temperamento, quase sempre incomodado pelo conflito existencial; tão comum aos que estão com a mente e a crença no que parece impossível.  Aliás, vale a dica de leitura: sua história é fascinante. 

Com isso, quero dizer, e não é preciso muito esforço para entender, que as nossas mentes trabalham mais e melhor quando colocadas à prova.  Em outras palavras, é preciso muita provocação para que o pensamento maximize sua potencialidade. E isso pode ser um exercício pessoal. Ou seja, podemos, sempre que possível, instigar a capacidade reflexiva praticando o jogo do “não concordo”. 

O jogo do “não concordo” funciona assim: toda vez que um grupo unificar suas opiniões, você pergunta: Será? Por quê? Como? Onde? Quando? Para quem? Cuidado. Não faça isso em voz alta. É receita infalível para polemizar os ambientes.  No início, pode até ser prazeroso participar de uma discussão calorosa; entretanto, você corre o risco de perder amigos, namorados e empregos. Então, aprenda a duvidar dos consensos mentalmente, calando a voz. Nunca o coração. Escrever é permitido: o coração reclama, o papel responde. 

Sim o papel responde; por isso os escritores existem. Eles aprenderam a se calar, sem deixar de questionar, pensar, criar, propor e filosofar. Samuel BecKett, famoso escritor irlandês e ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1969, disse que na sua vida houve três coisas que o fizeram escrever: “a impossibilidade de falar, a impossibilidade de calar e a solidão.” 

Bem, mas voltando ao jogo do “não concordo” é bom esclarecer que esses pensamentos não são meus. Sócrates assim ensinava seus discípulos. Ele, que aprendeu a filosofar, vivendo e morrendo sem nunca ter saído de Atenas, uma cidade de 50.000 mil habitantes na época, provou que o segredo da filosofia estava nas perguntas que fazia. 

A lamentação é que bem pouco ficou desta lição: invadidos por uma pressa sem fim e um egoísmo típico da vida contemporânea, preferimos ligar a vida num toque automático, sem perder tempo com perguntas e reflexões...  

Enfim, como sou fã da vida e dela não desisto, desafio um recomeço, sobretudo neste ano em que seremos apresentados aos candidatos a prefeito nas eleições municipais. Cenário ideal - espaço, tempo e ocasião - para treinar o jogo do “não concordo”. 

Ou vamos continuar concordando com tudo? 

Comentários

Conversas Entrelinhas

Mércia Falcini

Mércia Falcini

Psicopedagoga com Especialização em Formação de Professores e Sistema de Gestão. Atualmente é Diretora da Consultoria e Assessoria Saberes, Membro Fundador da Academia Saltense de Letras e colunista do site Itu.com.br.

Arquivo

14 de março de 2016

A corrida aos cinquenta

1 de outubro de 2015

Um filho gay: dores e amores

8 de dezembro de 2014

Refazendo as verdades

6 de março de 2014

A dor da perda

14 de fevereiro de 2014

A Pata do Elefante