Colunistas

Publicado: Segunda-feira, 21 de julho de 2008

Mistérios entre o Céu e a Terra

Paul Teixeira era um jovem médico que começava sua vida profissional em uma pequena cidade do interior. Naquele tempo, todo homem, por mais pobre que fosse, tinha que ter no mínimo, um terno de casimira para o inverno e um de linho ou de brim para o verão, mas, na época, o que estava na moda mesmo, que era o máximo de requinte, era o terno jaquetão preto.
 
Paul tinha o básico, e, assim que seus escassos rendimentos o permitiram, foi ao alfaiate encomendar o chique, o jaquetão preto. Para sua surpresa, porém, o Dito Alfaiate disse que não estava mais fazendo jaquetões pretos.
- Mas, por que isso?
- Porque os jaquetões pretos que eu confecciono estão dando azar
- Dando azar? Que bobagem é essa?
- Não é bobagem, não, doutor! Os meus três últimos fregueses se deram mal.
 - E como é que foi isso?
 
O doutorzinho se divertia com a simplicidade do alfaiate e se dispunha a ouvir-lhe as histórias. O primeiro foi o seu Amâncio. Encomendou o terno para usar no casamento da filha e acabou não havendo casamento porque o noivo não apareceu.
- O noivo não apareceu? Pensei que essas coisas só acontecessem nas novelas.
- Pois é. Aconteceu com a filha do seu Amâncio.
- Bem, mas o que o leva a pensar que o terno do Pai teve alguma coisa a ver com isso?
- Ouça o resto. Alguns dias depois o seu Amâncio estava usando novamente o terno, sofreu um acidente e morreu. Foi enterrado com ele.
- Mas isso foi uma coincidência. Uma infeliz coincidência.
- Fiz outro jaquetão preto para um advogado que o vestiu pela primeira vez para ir a uma audiência muito importante em outra cidade.
 
Foi assaltado na estrada. Perdeu o carro, levou um tiro de raspão e ainda perdeu a audiência. Depois de algum tempo, quando usava pela segunda vez a roupa, foi a um banquete onde comeu alguma coisa que lhe fez mal. Teve uma intoxicação e morreu de madrugada. Ele também foi sepultado com o terno preto. E houve ainda outro caso. Um noivo queria casar-se de jaquetão preto e veio encomendar-me.
 
Eu já estava ressabiado, tentei demovê-lo, convencê-lo a escolher outro traje, mas ele insistiu e eu acabei fazendo. Quando ele veio provar, assim que colocou o paletó, sentiu-se mal. Precisei levá-lo às pressas ao hospital. Estava enfartando, mas foi socorrido e salvou-se.
- Mais uma vez tentei fazê-lo desistir do terno, pois das outras vezes, foi assim, primeiro como se fosse um aviso, depois a fatalidade.
- Mas ele achou que era bobagem, insistiu, mas, no dia do casamento, quando estava se vestindo, sentiu-se mal novamente e dessa vez não teve volta. O enfarto foi fulminante e ele foi para a sepultura com o jaquetão preto.
 
Então, eu prometi a mim mesmo que nunca mais faria um terno preto, jaquetão.
- Interessante o que me contou, mas eu continuo achando que foram coincidências, pois não há lógica para isso. Como é que uma determinada roupa pode provocar desgraças?
- É doutor! O meu pai tinha uma frase dele muito verdadeira: “Há mais mistérios entre o Céu e a Terra do que pode conceber nossa vã filosofia”. Meu pai não era estudado, mas era um sábio!
 
O Dr. Miranda conhecia a frase, mas não se lembrava de quem era. Do pai do alfaiate é que não era! Mas, que importância tinha isso? Volta a insistir:
- Faça-me a roupa e eu lhe garanto que vou quebrar essa corrente.
- Desculpe, mas não posso fazer. Eu ia me sentir um assassino se alguma coisa ruim lhe acontecesse.
 
Insiste:
- Por que o doutor não escolhe outra coisa? Eu tenho uma casimira inglesa, azul marinho, muito bonita, por um preço excelente. A gente podia fazer o paletó com três botões, ia ficar até mais bonito, mais jovial...
 
O doutorzinho está obstinado:
- Não! Eu quero mesmo o jaquetão preto. Se você não quiser fazer, não faz mal. Eu vou a outro alfaiate.
 
Na iminência de perder o freguês, o Dito contemporiza:
- Está bem, eu faço a roupa.
 
Paul vai embora sorrindo divertido:
- Essas cidadezinhas e suas lendas! Esse alfaiate conhece todos os fregueses e sabe até a roupa que cada um usa e quando, e relaciona ainda o que acontece a cada um deles quando estava com determinado traje!
 
Mas esqueceu completamente a conversa do Dito Alfaiate até o dia que o terno ficou pronto e ele, numa tarde de domingo, envergou-o para ir à Missa das seis.
A Missa das seis era o encontro da moçada que depois ia divertir-se no footing da Praça, no cinema ou nas domingueiras dançantes, no clube.
 
Paul vestiu-se com capricho. O terno preto, a camisa de seda e a gravata nova, presente da namorada. (naquele tempo as moças presenteavam os namorados com gravatas). Olhou-se no espelho e gostou do que viu. Estava, realmente, muito alinhado.
 
Saiu de casa a pé, pois, médico pobre, recém formado, não podia dar-se ao luxo de ter um carro, e, quando atravessava a Praça, sem saber como, levou um escorregão e estatelou-se no chão.
 
Levantou-se com dificuldade. As costas doíam horrivelmente, tinha um galo enorme na cabeça e as mãos sangravam. Vieram-lhe a mente as palavras do alfaiate: “... primeiro, como que um aviso, depois...”
Não! Ele não ia esperar o “depois...”
 
Voltou o mais rapidamente que pode
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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