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Publicado: Segunda-feira, 26 de março de 2012

Miséria humana

Sentou-se no chão frio com as pernas encolhidas, sobraçando os joelhos e a cabeça caída sobre os braços.

Estava profundamente triste, arrependida de ter cedido à sugestão do namorado de ajudá-lo na venda de drogas.

Ele garantiu que, como a quantidade era pequena, mesmo que fossem pegos, podiam dizer que era para seu uso. Usar droga não é crime.

Mas não foi assim. Quando a polícia chegou ele deu jeito de safar-se deixando toda a muamba com ela.

E agora? Que seria de sua vida?

Alguém tocou-lhe de leve o ombro e levantando os olhos viu uma mulher de meia idade que lhe falou com meiguice:

—Fica assim não! Logo você sai daqui. Pior sou eu que tenho que amargar vinte anos.
—Vinte anos? O que você fez para merecer tanto?
—Apaguei meu namorado e não me arrependo, ele não valia nada. Eu devia ganhar um prêmio e não um castigo por mandá-lo para o inferno.

A coragem da outra deixou-a ao mesmo tempo admirada e assustada

Ela sofrera muito com o namorado, fora traída muitas vezes, espancada e acabara se envolvendo com a ilegalidade. Estava pagando pelo crime dele, mas não teria coragem de matá-lo apesar de desejar que alguém o fizesse.

Assustou-se com seus próprios pensamentos. Como podia pensar uma coisa dessas?

—O que a gente faz aqui, o dia todo?
—Se quiser pode ler uns livros chatos que umas mulheres crentes deixaram aqui para ver se a sua leitura tinha o dom de transformar-nos em Anjos, mas o melhor mesmo é conversar com as companheiras, ouvir suas histórias, fazer amizades que podem ser úteis quando a gente sair daqui.
—Úteis?
—Sim. A gente descobre as dicas, piscou o olho, as malandragens e pode até fazer umas parcerias para o futuro.

Fica arrasada. Não era isso que ela queria para sua vida. Sonhara com uma carreira, um bom casamento, uma vida decente, mas escolhera mal seu primeiro namorado e agora estava ali a mercê de criminosas escoladas.

Outra detenta se aproxima e entra na conversa:

—Por que você veio parar aqui?

Conta toda sua história. Não tinha porque esconder. Até era bom para elas avaliarem suas chances de ter sua pena reduzida.

—Não se avexe, menina! Isto é só o começo. Quando você pegar a malícia vai poder traficar à vontade, pois todo mundo sabe que bandido esperto polícia não pega.
—Mas eu não sou bandida! Não quero essa vida para mim!

A outra dá uma gargalhada e retruca:

—Dá tempo ao tempo, menina. Logo você vai ver que o crime compensa sim, só que tem que saber como se faz. Veja só o seu namorado, ele levou a grana e você a cana!
—Ele vai pagar por isso! Tenho certeza!
—Pode até ser mas, pelo que você diz, ele é esperto! Vai longe!

Outra gargalhada.

Toca a sirene. Cinco minutos para todas se acomodarem e a luz é apagada.

Deita enojada no colchão sujo, cheirando a mofo... Cigarro... Suor... Sabe-se lá o que mais... Não consegue dormir, sente um vazio dentro de si como se houvesse um deserto em sua alma.

As suas cinco companheiras de quarto se acomodaram sem parecer sentir o desconforto.

Pouco depois uma delas toca de leve em seu ombro e oferece um pequeno embrulho:

—Cheira que é muito bom.
—Droga? Eu não quero.
—Deixe de ser boba. É só um cheirinho e você vai se sentir muito bem.

Vagarosamente, relutante, chegou o pozinho branco até as narinas e deixou-se levar pela perigosa euforia sem imaginar que aquele era o primeiro passo para soa decadência.
 

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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