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Publicado: Sábado, 16 de setembro de 2017

Mendigo Bom é Mendigo Morto/Baseado em fatos reais

Crédito: Internet Mendigo Bom é Mendigo Morto/Baseado em fatos reais
O mundo tem jeito. De onde menos se espera, nasce a esperança.

Noite de sábado. Estou sozinho, saindo da missa. Dez passos pra fora da Catedral de Jundiaí e escuto: "Ô, sinhô! Dá uma ajuda!". É incrível como aumentou o número de pedintes, andarilhos e moradores de rua nestes últimos dois anos. Efeito da desastrosa gestão econômica do Governo Dilma. De fato, os comunistas amam tanto os pobres que nunca desistem de os multiplicar.

Ouro e prata? Não tenho. Vinte reais no bolso, que mico! O cidadão pediu, é um irmão que precisa. Dar esmola é prática de caridade válida desde o tempo dos judeus. Não caio nessa de que deixar de praticar a caridade pela esmola é prejudicial. O que prejudica o povo é roubar bilhões e bilhões dos cofres públicos. A minha parte eu tento fazer de alguma forma.

Vou até o mendigo, aperto sua mão, pergunto o nome. O que ele quer? Comida, um pão, qualquer coisa. Vamos até o carrinho de cachorro-quente da outra praça? Que tal? De graça, até injeção na testa. Vamos lá!

No meio do caminho, um bate papo. Cincoenta e dois anos, há cinco na rua. Perdeu o emprego, não achou mais. Entrou na cachaça, irritou a mulher e espancou os filhos. Saiu de casa. Vida de cão? Vida de gado? "Não, sinhô... Bicho vive melhor do que a gente!".

Peço um cachorrão duplo, no capricho. E um refri. Quer saber? Melhor pedir dois. Vamos continuar o papo durante o lanche. A noite é quente, agrada ficar na brisa da quase primavera. Ficam prontos os lanches, pego guardanapos. O mendigo quase come com plástico e tudo. Vou desembrulhando o meu quando escuto: "Tio, ajuda aí...". São dois moleques. Não devem ter mais do que trezes anos. Lá se foi o meu cachorrão. Toma. Repartam. Levem o refri também.

Faço as despedidas e recomendações de praxe pra mais aquele irmão de rua. Volto pra casa. Bato a chave no portão e vejo mais dois infelizes semi deitados na calçada, distantes alguns metros. Ouro e prata não tenho. Acabou a verba. Vida de seminarista não se baseia em cédulas. Quem dera fosse como Cristo, pra multiplicar os pães!

Entro em casa, não me conformo. Vou até a geladeira e encontro dois pedaços de filé de frango, sobras do almoço. Um filé em cada pão, ambos no microondas. Junto duas latas de refri e encontro até dois bombons pra adoçar a vida. Atravesso a rua, vou lá na calçada sentar também. Cumprimentos, que bacana! "Pobres sempre os tereis", disse Jesus um dia. É verdade...

Papo vai, papo vem. Um deles está quase acabado. Andarilho bicho-grilo, não sai da rua por nada. Sessenta anos nas costas. O outro, seu amigo, é novo demais: apenas 22 anos! Surpreso fico: ele está nas ruas desde os 14! Família ruim, pais drogados e a rua pareceu melhor. Faz seus bicos, cata seus entulhos, mas é refém das ruas, não consegue sair.

Passa uma prostituta. Ou travesti, sei lá. Diz pra mim: "Esses não tem jeito, não dá trela, vaza". Não percebi que estávamos na frente de um hotel que é ponto de encontros sexuais. No mesmo instante, respondo: "É, filha... Estou cuidando destes dois. A vida é dura!". Ela desdenha, ri, fecha a porta e some. Meu papo com os dois irmãos de rua continua.

Contam-me a vida, o que já passaram, os sonhos e as vontades. Dou conselhos, conto exemplos, questiono. Principalmente ao jovem: o primeiro a querer se ajudar é ele mesmo! Tem que fazer por onde! É muito moço pra perder a vida vivendo na sarjeta! Mas ele é orgulhoso, como todo jovem, aliás. Insisto e repito. Ele parece ouvir. Minhas palavras são diferentes do que está acostumado a ouvir.

Os dois acreditam que dinheiro é solução pra tudo. Ê, brasileiro! Povo dinheirista, que vende a mãe por causa de um maço de dólares! Dói, mas é verdade. A solução está no Amor, não na grana! Jesus ensinou isso pra nós: pelo Amor, o Cristo salvou a muitos. Pela grana, Judas se perdeu. Tiro do bolso os últimos cinco contos que me restam. Quer dinheiro? Toma. Dinheiro não é a solução.

Passa o tempo, preciso ir pra casa. Fiz o que pude, com todo o amor do meu coração. Sei que eu mesmo poderia estar na rua se tivesse escolhido caminhos errados na minha juventude. Quero ajudar mais, porém, não posso. Um dia, quem sabe? Deus sabe. Que faça permanecer em mim a vontade de continuar olhando praqueles que a sociedade faz questão de ignorar.

A prostituta volta, com dois cobertores. Olho surpreso e ela diz: "Toma aí, pra vocês não ficarem no sereno". E vai embora, atrás de algum outro cliente. O mundo tem jeito. Nem tudo está perdido. De onde menos se espera brota a caridade através de um gesto simples. São os corações humanos, sofredores, conectando-se em suas misérias e no Amor também.

Mendigo bom é mendigo morto. É o que dizem alguns. Não existe mentira maior. Quem afirma isso já morreu por dentro. O morador de rua é apenas alguém que sofre igual a gente, mas de modo diferente. Também precisa de atenção e amizade, afeto e dignidade. Gente que precisa de uma nova chance ou apenas de ouvir um "Fique firme! Insista! Você vai sair dessa!".

Os pobres são o tesouro da Igreja, já dizia São Lourenço, mártir e padroeiro dos diáconos. No meu caso, voltei hoje pra casa muito mais rico.

Amém.

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Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é sacerdote católico apostólico romano e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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