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Publicado: Quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Memórias Póstumas de Más Cubas

(Homenagem ao centenário de falecimento de Machado de Assis)
 
Quando dei por mim estava ali, diante de mim. Inerte, a tez pálida como um mármore. Olheiras e lábios roxos, com algodão por todos os orifícios da cabeça. O rosto não estava inchado, menos mal. Pelo que me lembro, não fiquei hospitalizado. Foi algo fulminante. Bebericava a minha bebida predileta, a cuba-libre. Rum e coca-cola, mistura da bebida típica de Fidel com o símbolo do capitalismo norte-americano. Mal sabia que o rum estava contaminado. Na terceira dose, cataplum: tive um colapso.
 
O que faz uma alma enquanto aguarda seu destino definitivo? Espera. Aguarda. Mas sem ver o tempo passar, pois aprendemos com os gênios da Física que sem matéria não há espaço tempo. Portanto não sei onde estou e nem em que tempo. Sei apenas que pareço estar. E estou diante de mim, no meu próprio funeral.
 
As pessoas vão chegando aos poucos. É claro que não percebem a minha presença. Parecem mesmo tristes, o que me conforta. Não que eu goste de presenciar o sofrimento alheio. Mas é que o ser humano tem uma maneira peculiar de sentir as perdas. Diante da morte, se entristecem. Como se a vida na terra fosse perfeita e cheia de felicidades sem fim.
 
Estar no próprio velório é algo surreal. E tem que ser mesmo, pois deixei de ser real quando dei meu último suspiro. Não significa que não possamos ter surpresas. Espanto-me com a presença de algumas pessoas no velório, das quais não tive notícia por muitos e muitos anos.
 
Dos amigos e amigas, nem preciso falar. Esses sempre estiveram bem próximos. E estão ainda agora, na despedida final. Sinto mais por mim do que por eles, pois foi a amizade de todos que me fez suportar muitas mazelas da minha existência. Para onde vou, creio que não precisarei de mais nada. Tudo se completa e se resolve na eternidade.
 
Parentes de longe vieram de todos os cantos do país. Minha família sempre pareceu ter sido explodida por uma bomba atômica, com cada parte em um Estado. De muitos tenho apenas recordações de infância. Uma característica básica eram as reuniões em velórios, como o meu. Só nos víamos diante da morte de algum parente ou conhecido. Era o momento de atualizar as informações familiares.
 
Alguns membros da tradicional sociedade local também apareceram. Ficaram sabendo da notícia e resolveram dar o ar da graça. Quando vivo, mal se importavam comigo. Cumprimentavam-me vez ou outra, por educação. É incrível o que as pessoas fazem a fim de parecer simpáticas. No meio das conversas, durante o velório, falam de mim. Da imagem que tinham de mim. Mas não me conheceram de verdade, tampouco procuraram isso. Enfim, convívio mais de conveniência do que de estima. Fica a lição.
 
Não há como deixar de comentar a presença das ex-namoradas. Incrível como o tempo passou, mas continuaram queridas em minhas memórias. Nunca mais nos falamos, décadas nos separaram. Mas como a cidade é pequena, sempre ficava sabendo de uma coisa ou outra a respeito delas. Fizeram o que é certo: continuaram a vida, acharam outras pessoas, casaram, tiveram filhos. Tudo conforme manda o figurino. E se lembraram de me prestar a última homenagem, aproximando-se do meu esquife com as lembranças estampadas nos olhos.
 
Mesmo finado, continuo aprendendo. É verdadeiro aquilo que sempre dizemos enquanto vivos, que da vida levamos apenas as lembranças, as recordações das boas amizades, a alegria dos momentos felizes. É claro que a gente lembra das tristezas também, das dificuldades. Mas elas viram pó nas páginas do tempo. Viram cenas acinzentadas, felizmente ofuscadas pelo colorido das boas passagens do viver. Sim, há vida após a morte. E ela pode ser muito boa conforme o que fomos e fizemos durante a travessia terrestre.
 
Amém.

 

 

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Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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