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Publicado: Quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

Liberdade de Imprensa também tem Limites?

Quando o “France Soir” publicou aquelas charges satirizando Maomé, não imaginava a confusão que iria causar. Não sabia mesmo? Em tempos conturbados nas relações entre as culturas judaico-cristã do Ocidente e a islâmica do Oriente Médio, não era preciso muita perspicácia para imaginar que a repercussão seria enorme, superada apenas pelo número de protestos de muçulmanos do mundo inteiro.
Com a polêmica acesa, diversos jornais europeus reproduziram as charges, alegando o direito da liberdade de expressão que toda imprensa séria deve exercer. Como conseqüência, desde o último dia 20 de janeiro aconteceram dezenas de protestos dos povos islâmicos, resultando em várias mortes. O assunto despertou um assunto que andava fora de pauta, mas que é sempre bom colocar em debate: até onde vai a liberdade de imprensa?
Sou um defensor da liberdade. Em nível pessoal, acredito que cada um deve ter o direito de fazer o que quiser, do modo como quiser. Mas mesmo para isso há limites. Não é à toa que todas as sociedades tÊm códigos, regras e leis a serem seguidas. O bom senso no uso da liberdade individual é o famoso ditado de que “a sua liberdade termina onde começa a minha”.
Como jornalista profissional, sou defensor da imprensa livre. Não aprovo qualquer tipo de regulamentação que tenha o objetivo de amordaçar jornalistas e órgãos de imprensa. Sou contra qualquer tipo de censura, seja prévia ou não. Nós que costumamos trabalhar com a verdade dos fatos (e não só fazer disso um ofício, mas também um ideal de vida) temos como um valor sagrado poder atuar livremente na imprensa.
A imprensa deve ser livre, mas também deve ter limites. Se o “France Soir” está certo ou não, por ter publicado sátiras a Maomé, é uma questão em aberto. Cada um tem sua opinião. De vez em quando me deparo com charges parecidas satirizando Deus, Jesus Cristo ou algum santo católico. A diferença é que aqui no Ocidente não temos o costume de sair por aí queimando bandeiras ou jogando bombas caseiras em embaixadas por causa disso. Falta de vontade de defender a fé? Nem tanto. Talvez seja uma cultura de procurar resolver esses e outros conflitos através do diálogo ou de uma retratação, nem que seja preciso ir à Justiça pedir um direito de resposta.
Por outro lado, aprendi certa vez que nem tudo o que “pode”, “deve” ser feito. Insisto: há que se ter bom senso. Sabendo que os nervos islâmicos estão à flor da pele, não seria mais conveniente deixar as charges de Maomé de lado? Precisavam ter publicado todas de uma vez só? Os editores não pensaram no desagrado de seus leitores muçulmanos?
A imprensa contribui muito com a sociedade moderna. Mas sem limites causa vários estragos. Às vezes acaba injustamente com a reputação de alguém (pesquise o famoso caso da Escola Base) e quando se dá conta da verdade nem sempre faz uma retratação à altura.
A polêmica das charges de Maomé vai ser longa. Mas há males que vêm para bem. Como também acredito na democracia e no debate civilizado, eis uma oportunidade para discutir sobre a liberdade da imprensa, seja nas faculdades ou no ambiente familiar. Vale a pena refletir. Se em tudo na vida um pouco de prudência e canja de galinha não faz mal a ninguém, por que para a imprensa a regra seria diferente?
E tem gente que ainda acha moleza a profissão de jornalista... É preciso ter muito cuidado com as nossas intenções e mais cuidado ainda com o resultado delas.

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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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