Colunistas

Publicado: Domingo, 13 de dezembro de 2009

Lembranças do passado em pról do futuro

Minha mãe não aceitou o diagnóstico daquele primeiro médico: “Seu filho tem algum problema de ordem mental”. Ainda bem! Correndo atrás de uma segunda opinião, finalmente descobriram minha hiperatividade. Crianças hiperativas ainda eram assunto um tanto quanto desconhecido naquele fim da década de 1970.

Por essas e outras razões (ninguém me suportava 24 horas dentro de casa) fui colocado na escolinha já aos dois anos de idade. Algo comum nos dias de hoje, em que pais e mães são obrigados a deixar a prole aos cuidados de algum profissional afim de manterem sua rotina de trabalho e compromissos sociais.

Naquele início da década de 1980, não era algo tão comum assim. Com um par de anos de vida, já passava a conhecer o chamado “ambiente escolar”. Nem sempre gostava de deixar as brincadeiras caseiras e embarcar na perua Kombi rumo à escolinha: aprendi até a me esconder atrás da cortina da sala.

O contato com outras crianças fez-me um bem enorme, tanto social quanto psicológica e culturalmente. Minha hiperatividade permitiu que eu me desenvolvesse integralmente. É claro que o crédito fica todo por conta das professoras daquele tempo. Elas souberam aplicar seus conhecimentos educacionais e pedagógicos a fim de que eu pudesse apreender o máximo possível de cada episódio ocorrido nos dias de aula.

A entrada no chamado “primário” (hoje Ensino Fundamental I) aconteceu sem problemas. Não fui daquelas crianças que choravam no primeiro dia de aula, chamando a mãe. Habituei-me com a rotina de conviver com a mesma professora o ano inteiro; de ler cada lição na cartilha “Caminho Suave”; de correr como doido na hora do recreio; e de voltar para casa a pé e deixar o motorista da perua escolar desesperado.

Outro marco de recordação como aluno foi a entrada para o então “ginásio”, hoje chamado de Ensino Fundamental II. Foi um contraste. No primário tínhamos uma professora apenas, com ares maternais, a quem chamávamos de “tia”, mesmo não sendo ela parente nossa. No ginásio o ambiente mudava. Estávamos crescendo e lidando com oito matérias e professores diferentes a cada semana!

O ar maternal sumiu. Foi substituído por algo mais sério na questão da postura dos professores em relação a nós, alunos. No primeiro dia de aula, o professor de História explicou-nos toda a sua metodologia e como seriam os trabalhos por ele desenvolvidos, bem como o que esperava da nossa parte. Terminou dizendo: “Eu vou comer o fígado de vocês, caso façam pouco caso das minhas lições”. Nem preciso dizer que todos nos concentrávamos deveras em História.

Coincidentemente, há poucas semanas recebi a notícia do falecimento do Professor Armando, de Ciências e do Professor Antoracy, de História. Recordo-me agora que foram os únicos professores homens que tive em todo o meu primeiro grau. São também dos que guardo boas lembranças sobre como manter uma classe interessada e disposta a aprender.

É claro que depois, durante o Ensino Médio e a minha primeira faculdade, tive outros mestres muitíssimo preparados para a arte de ensinar. Mas a gente sempre guarda com mais carinho aqueles episódios da nossa infância e adolescência. O desejo de lecionar vem, em parte, dessa vontade interior de retribuir toda a atenção que tive por parte dos meus professores e professoras. Um tipo de pessoas preocupado realmente com a formação intelectual de seus alunos, em todos os aspectos.

Acredito que, para ser um professor tão bom quanto os que tive, basta ter o mesmo amor pela profissão que eles demonstravam. Ter a preocupação com a formação real dos alunos, não apenas para a realização de provas e deveres, mas principalmente para os grandes desafios da vida. Naquele tempo não havia ENEM, ENADE, Provão e nem tanta preocupação quanto aos exames vestibulares. Entretanto as matérias era lecionadas e aprendidas a sério. Os alunos podiam ser reprovados por falta de frequência, mau comportamento ou notas baixas. Hoje está tudo diferente, e para pior...

Todos estão cientes que as escolas públicas em geral sofreram uma grande deterioração de vinte anos para cá. Faltam verbas e recursos. Faltam bons salários para os professores. Faltam estímulos reais para os alunos. Faltam disposição e comprometimento da parte dos alunos. Faltam interesse e sentido de co-responsabilidade por parte de pais e responsáveis.

Parece que nossos governantes esqueceram que uma nação culta e bem educada é a fórmula para o verdadeiro crescimento do país. As verbas para Educação e Cultura são sempre minguadas. Não se investe o suficiente na formação dos profissionais da área e nem em seus salários. O interesse maior é por números e estatísticas de alunos aprovados. 

O Brasil até parece uma grande fábrica de diplomas, de todos os níveis, com o objetivo de mostrar ao mundo (só “para inglês ver”) que nossos bancos escolares estão repletos. Corremos o risco de nos tornarmos (já não nos tornamos?) um país de diplomados que mal sabem escrever o próprio nome. Seria isso saudade do velho Mobral?

Décadas atrás os professores não tinham internet, computadores, data show, power point, projetores e nenhuma das tecnologias atuais. Quem não fica nostálgico ao lembrar das provinhas impressas no mimeógrafo, com aquele cheiro de álcool? Mas parece que naquele tempo a sociedade em geral se preocupava mais com a educação de suas crianças, adolescentes e jovens.

Amém.

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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é sacerdote católico apostólico romano e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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