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Publicado: Segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Juízo, Verônica!

Danilo era um adolescente e estava apaixonado pela Verônica, sua professora de inglês. Para ele, ela era a mais bela, mais inteligente e mais sábia de todas as mulheres e muito mais interessante do que as meninas de sua idade.

Ele, que sempre fora estudioso, agora se dedicava ainda mais aos estudos desejoso de fazer-se especial aos olhos dela.

Verônica percebeu logo a paixonite do garoto e isso a empolgou. Casara-se cedo e mal. Tinha uma vidinha medíocre, sem qualquer emoção. Nunca sentira nem despertara uma grande paixão, nem mesmo pelo marido. E agora era o alvo do primeiro amor de um rapaz encantador, bonito, inteligente, brilhante!

Isto a emocionava embora, conscientemente soubesse do absurdo de estar correspondendo a esse amor platônico e inconfessável. Não era mulher de aventuras, muito menos com um garotão feito o Danilo, e recriminava a si mesma:

 -Juízo, Verônica

Mas não podia evitar que seu coração batesse mais rápido cada vez que o Danilo passava por ela.

Quando ele foi prestar o vestibular ela, embora escandalizada com a sua própria maldade, desejou que ele não passasse para tê-lo perto de si por mais um ano.

-Juízo, Verônica! - Dizia-lhe a razão, mas o coração não lhe fazia eco.

Danilo passou com brilhantismo e foi estudar em uma universidade famosa e distante. Sua família mudou-se e ele perdeu todo o contato com a cidade e consequentemente com a antiga professora.

A vida de Verônica ficou mais vazia e descolorida do que nunca. Não tinha mais nada emocionante e, muitas vezes, lembrava com saudade do seu apaixonado-menino.

Por onde andaria? Será que ainda lembrava-se dela?

E recriminava-se:

- Juízo, Verônica!

Dias sombrios sobrevieram. O marido faleceu. A filha foi fazer um intercâmbio cultural nos Estados Unidos e ela ficou só. E foi então que resolveu realizar um velho sonho. Fazer uma especialização nos EEUU. Assim ficava mais perto da filha e podia, quem sabe, dar um rumo novo a sua vida.

O que ela não esperava era encontrar no Instituto onde faria o curso, nada mais nada menos que o Danilo!

Ele estava muito diferente e muito mais encantador. Homem feito, bonito, seguro, falando fluentemente o inglês. Fazia um estágio avançado, era assistente de um dos famosos professores e ministrava aulas para as turmas iniciantes.

De repente, a situação inverteu-se. Ela era a aluna insegura, falando mal, com dificuldade de compreensão e ele o professor que parecia ter conquistado o dom da sabedoria.

Ele mostrou-se muito atencioso com ela, feliz em reencontrá-la. Ela não tinha mudado muito nos últimos anos. Agora a diferença de idade entre eles parecia muito menor.

Foi gentil, ajudou-a a instalar-se e integrar-se na cidade e na escola. Levou-a passeios para conhecer os pontos turísticos da região e uma esperança começou a brotar no coração de Verônica. Quem sabe, agora, tudo daria certo? Achava evidente que ele ainda era apaixonado por ela.

- Juízo Verônica! Não comece a sonhar demais! - dizia-lhe a razão, mas o coração retrucava que era melhor não ter muito juízo, pois o amor pode ser tudo que quiserem, menos sensato.

E foi então, durante um jantar que ele fez uma alusão ao passado:
- Você sabia que fui apaixonado por você quando era garoto?

- Claro! Amor não é coisa que se consiga esconder.

Ele riu divertido:

- Talvez devesse pedir-lhe desculpas pelas “coisas” que pensei!

- Imagine! Uma mulher sempre se sente feliz por ser amada.

E, então, veio a bomba:
- Estive falando com a minha namorada sobre você. Contei que era uma antiga professora que reencontrei... só isso!

Riu, malicioso.

Ela pediu-me para levá-la a sua casa no domingo, para almoçar. A família dela é muito legal. Vai ser bom para você conhecê-los.

Verônica pensou que não conseguiria reter as lágrimas, mas, (que remédio?), disfarçou:
- Oh! Sim! Vamos, sim!

Intimamente, porém já estava pensando em que desculpa daria para não ir.

Fingir-se de doente?

Voltar correndo para o Brasil?

Matar-se?

Mas, é claro que não fez nada disso. Aquela vozinha interior mais uma vez a advertiu:
- Juízo, Verônica!

E foi ao almoço.

Viu o Danilo ao lado da Shirley, uma menina linda, da idade dele. Surpreendentemente descobriu que seu amor por ele era outro. Desejava de todo coração que ele e Shirley fossem felizes juntos, enquanto ela continuaria sendo a velha professora, seu primeiro e ingênuo amor de adolescente.

A visita foi muito agradável. Shirley e os pais eram muito simpáticos.

Estava presente também um tio de Shirley, viúvo, da idade da Verônica, com quem ela conversou muito e descobriu muitas afinidades.

Seu coração começou a entusiasmar-se, mas a razão ponderou mais uma vez:

- Juízo, Verônica!

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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