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Publicado: Terça-feira, 12 de setembro de 2006

Itu, Boca do Sertão!

Itu é uma das mais antigas cidades do Estado de São Paulo. O povoamento da região chamada Campos de Pirapitingui deve ter começado na segunda metade do século XVI com a Missão de Maniçoba, uma aldeia fundada pelos jesuítas para reunir e catequizar índios guaianazes.

Não se sabe ao certo onde ficava essa aldeia. Talvez seja a mesma aldeia de que fala Simão de Vasconcelos, situada a 90 milhas de São Paulo em direção ao sertão, “junto de um rio onde se embarcava para as terras dos carijós". Muito pouco durou a aldeia de Maniçoba. Os jesuítas resolveram abandoná-la, concentrando suas atividades em um lugar mais perto de São Paulo. Certo é que já no início do século XVII gente da vila de Santana de

Imagem: "Fundação de Itu por Domingos
Fernandes e Cristovam Diniz (1610)"
Parnaíba possuía terras nos Campos de Pirapitingui. Mas, a data oficial de fundação de Itu é 1610, ano em que Domingos Fernandes e seu genro Cristóvão Diniz edificaram a capela dedicada a Nossa Senhora da Candelária. Os pais de Domingos Fernandes eram o fidalgo português Manuel Fernandes Ramos e a paulista Suzana Dias, pais também de Baltazar Fernandes, André Fernandes, Pedro Fernandes, Custódia Dias, Benta Dias e Ângela Fernandes.

Os Fernandes ficaram conhecidos na genealogia das famílias paulistas com o título de Povoadores. André e seu pai Manuel fundaram Parnaíba. Baltazar é o fundador de Sorocaba, Domingos e seu genro Cristóvão fundaram Itu. No seu testamento, passado em 12 de dezembro de 1652, Domingos declara: “Eu alcancei dos prelados e administradores Mateus da Costa Aborim e Lourenço de Mendonça e do senhor administrador, que hoje é Antônio de Moraes, licença para fundar uma capela para nela ter capelão curado neste Utuguassu, a qual capela levantamos entre ambos por concerto que para isso fizemos de palavra de sermos na dita capela iguais padroeiros com o defunto Cristóvão Diniz, meu genro, e lhe deixarmos nossas terças para seus aumentos da dita capela, a qual levantamos como digo no campo de Pirapitingui a honra e invocação de Nossa Senhora da Candelária, a qual capela faço e constituo por herdeira do remanescente da minha terça de tudo o que se achar por minha morte”.

Domingos Fernandes morreu no seu sítio de Utuguassu em 1653. Como lembrou o historiador Chiquito Nardy, apesar da manifesta vontade de ser enterrado na povoação que fundara, os seus restos mortais foram levados para a Igreja Matriz de Santana de Parnaíba: “Declaro que se Deus Nosso Senhor for servido levar-me desta presente neste Utuguassu, que meu corpo seja enterrado na capela que temos levantada no campo de Pirapitingui com o meu genro o defunto Cristóvão Diniz a honra e invocação de Nossa Senhora da Candelária”.

No século XVII durante decênios Itu foi o ponto mais profundo do povoamento de todo o Brasil — a “Boca do Sertão”. O historiador Afonso de Escragnolle Taunay, organizador do Museu Republicano “Convenção de Itu”, teve a idéia de representar essa fase da história local em três painéis de azulejos, aos quais deu os títulos de 1. Missão de Maniçoba (1553), 2. Itu: Boca do Sertão e 3. Fundação de Itu em 1610 por Domingos Fernandes e Cristóvão Diniz.

O painel Fundação de Itu em 1610 por Domingos Fernandes e Cristóvão Diniz , como os demais painéis, foi produzido pelo ceramista Antonio Luís Gagni em 1942 a partir de uma representação sugerida por Taunay. O historiador explica a composição nos seguintes termos: “notam-se no fundo do quadro os toscos edifícios do arraial que desponta, a igreja de Nossa Senhora da Candelária, em cuja fachada está a sineta da convocação dos fiéis à missa e de rebate dos bons vassalos para as ocasiões do serviço d'El Rei, e as singelas casinhas cobertas de palha dos moradores. Ainda no mesmo plano, duas árvores gigantescas, colossais jataís que ainda duraram muito e cuja lembrança longamente viveu na memória dos ituanos. Em frente à igrejinha, sogro e genro, Domingos Fernandes e Cristóvão Diniz observam a execução do trabalho que acabam de encomendar aos seus servos: o chantamento do primeiro e tosco cruzeiro da nova povoação. Pelas portas das palhoças e pelo Largo, brancos e índios assistem à piedosa cerimônia. No listão da moldura que enquadra a composição, lê-se: Itu, boca do Sertão . E realmente naquela época (1610) era o novo povoado o núcleo civilizado mais distante do litoral existente em todo o Brasil (cerca de 160 quilômetros). Domina o quadro a cruz da Ordem de Cristo, sobre cujo braço vertical se estampa o círio aceso, atributo simbólico da Senhora da Candelária”.

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História

Jonas Soares de Souza

Jonas Soares de Souza

Pós-graduado em História Social e Especialista em Patrimônio Cultural, é pesquisador-docente do Museu Paulista da Universidade de São Paulo (Museu do Ipiranga e Museu Republicano de Itu), membro do ICOM - International Council of Museums e da AIMH - Association Internationale des Musées d'Histoire.

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